quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

"Música Urbana"...

... oriunda das cinzas do Aborto Elétrico, assim como "Veraneio Vascaína" e "Fátima", por exemplo, foi lançada em 1986 no álbum autointitulado da banda Capital Inicial e se tornou um grande hit. No vídeo abaixo, você pode conferir uma curiosa história sobre como Dinho Ouro Preto, através de um Orelhão, pediu ajuda para Renato Russo terminar a canção.

Novos Baianos - Barra Lucifer

Voluntários da Pátria

Grupo paulista formado em setembro de 1982. Realizou uma série de shows no ano de 1983. Tocou no Carbono 14, Rose Bom Bom, Lira Paulistana, Clash, Sesc Pompéia e Napalm (São Paulo), Noites Cariocas e Circo Voador (RJ).
Os Voluntários da Pátria não se apresentam ao vivo desde o início de 1984 (exceção feita ao show pelas Diretas-Já no Centro Cultural São Paulo). Durante este tempo, o grupo se dedicou à criação e aperfeiçoamento de músicas para a composição do grupo desde o seu surgimento. O objetivo inicial deste trabalho era o de registrar este material em um LP. O papel do disco seria o de reproduzir fielmente os sons produzidos pelo grupo. A “fidelidade” em questão se refere ao som produzido ao vivo pelos Voluntários da Pátria, com os timbres de seus instrumentos equalizados de acordo com sua própria concepção estética. E o primeiro passo na tentativa de ir de encontro a este critério, foi de abandonar toda e qualquer perspectiva de lançar o LP por uma gravadora. Tinha-se descoberto que as gravadoras são incapazes de reconhecer e avaliar trabalhos que fogem dos padrões derivados de modismos passageiros. Não existe interesse nem iniciativa no sentido de se fazer um investimento a longo prazo, dirigido a um novo mercado, um mercado sólido sustentado por uma base real: a relação do consumidor criterioso com a música criteriosa, ou seja, uma relação onde os envolvidos partem para a discussão sobre determinado trabalho, situando-o em determinado contexto e resguardando ou não seu papel histórico de obra de arte. Tinha-se descoberto também, que os produtores de disco daqui são incapazes de situar qualquer tipo de música feita por jovens, em outro universo que não seja o das FMs e Mas comerciais. Isto revela sua desinformação: ignoram, entre outras coisa, o movimento punk, um movimento que praticamente alterou o comportamento do mercado fonográfico a nível mundial, além de ter influenciado toda uma geração de músicos e ouvintes.
Os Voluntários da Pátria partiram então para a auto-produção, contando côa a ajuda mecência de Luiz Carlos Calanca (Baratos Afins Records). O resultado é um LP com oito faixas instigantes, três das quais censuradas. São oito faixas onde prevalece a originalidade da integração letra/música/arranjo (os Mutantes faziam isso com classe). O LP, situado no marasmo da MPB, merece ser tratado seriamente. O disco foi gravado em julho/84 no Mosh Studio (16 canais), São Paulo, e lançado pelo selo Baratos Afins Discos.
Os Voluntários da Pátria eram: Miguel Barella (guitarra, guitarra sintetizada), Giuseppe Frippi (guitarra, guitarra sintetizada), R. Gaspa (baixo), Nazi (vozes) e Thomas Pappon (bateria e vozes de fundo).



Compaixão - Nenhum de Nós

"O punk não seria como conhecemos hoje se não fosse Bowie", diz Kid Vinil:


"Meu primeiro contato com a música de David Bowie foi em agosto de 1972, quando ouvia um programa da extinta Rádio Excelsior de São Paulo, à meia noite produzido pela DJ Sônia Abreu. Era uma noite tempestuosa, chovia muito e os raios cortavam o céu. A rádio mostrava em primeira mão o álbum "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars".









Aquele momento foi pra mim uma revelação e como muitos dizem "minha vida mudou depois daquela noite". No mesmo programa de rádio, eles mostraram o álbum "Electric Warrior" do T. Rex. Era minha iniciação no Glam Rock. Daí vieram Slade e Roxy Music que eu também idolatrava. Mas dentre esses todos citados Bowie se destacava de uma maneira muito especial.

Sua música trazia o lado hipnótico de Marc Bolan, a energia do Slade e o glamour do Roxy Music. Além de todas essas qualidades, ele encarnava um personagem mutante.

Depois de comprar o LP de Ziggy e ouví-lo ininterruptamente, voltei atrás um pouquinho em sua obra e adquiri o álbum "The Man who sold the world" (faixa título que ficou eternizada pela cover ao vivo do Nirvana). Kurt Cobain era um grande fã de sua obra, mas Bowie influenciou muita gente e diversas gerações.

A maioria das bandas de punk rock e new wave (Damned, Ultravox, Siouxsie, Sex Pistols, Blondie...) tinham David Bowie como sua maior referência.

Vieram os anos 90 e o britpop mais uma vez bebia na inesgotável fonte Bowie (Suede, Placebo, Pulp, Blur e etc). No novo milênio de Arcade Fire a Tame Impala, todos reverenciam a obra do camaleão. A minha fase favorita da carreira do Bowie é exatamente essa sequência de álbuns clássicos,"The Man Who Wold The World" em 70, "Hunky Dory" em 71, "Ziggy" em 72, "Aladdin Sane" em 73, "Pin Ups" em 73 (esse em especial um dos melhores discos de covers que já ouvi, nele Bowie regravou canções de suas bandas favoritas na década de 60, The Who, Pink Floyd, Pretty Things, Them, entre outras).

Nesses discos Bowie era acompanhado por um guitarrista espetacular chamado Mick Ronson, uma figura marcante e decisiva na carreira de David Bowie naquele início dos anos 70, assim como foi o produtor Tony Visconti que esteve presente na maioria de seus discos, até o mais recente e derradeiro "Blackstar". Toda essa fase hard e glam sucumbiu após a dissolução do Spiders from Mars e a morte de Ziggy Stardust.

Bowie sentia a necessidade de dar um fim no personagem e partir pra novos horizontes musicais. Não adiantaria ficar preso a um personagem e um mesmo estilo, estava na hora de mudar então veio "Diamond Dogs", em 74, que de certa forma, apesar de não contar mais com a guitarra de Mick Ronson e nem o resto dos Spiders from Mars, ainda trazia resquícios de personagem como foi em Ziggy Stardust.

A música apresentava mudanças radicais, alguns fãs ficaram decepcionados num primeiro instante, mais tarde reconheceriam como mais uma obra prima de sua carreira. No auge da era Disco Music Bowie abraçou o R&B e a Soul Music e chega em 75 com "Young Americans", cujo disco encerra com "Fame" em parceria com John Lennon e Carlos Alomar.

Inquietação

Visualmente Bowie não era mais aquele ser andrógino da era glam. Seu novo look eram terninhos acinturados e bem cortados. As mudanças não ficavam por aí. Em 76, o inquieto camaleão lança "Station to Station". Um disco que ainda bebia na fonte da soul music em "Golden Years", por exemplo, mas que já flertava com a era dos sintetizadores, que culminou em Berlin, na Alemanha, ao lado do cultuado produtor e músico inglês Brian Eno que foi do Roxy Music.

A música eletrônica do Kraftwerk e o pós punk britânico eram a tônica de "Low", em 77. O vanguardista Bowie não deixa por menos, no mesmo ano, em plena explosão do punk rock, ele vem com "Heroes". Dois álbuns que serviam de cartilha para iniciados no punk e pós punk. A trilogia em Berlin com Brian Eno se encerra com "Lodger", outro passo a frente. Sua entrada na década de 80 vem com outro clássico, "Scary Monsters", e com o hit "Ashes to Ashes" e um de seus vídeos mais chocantes. Adaptado a descartabilidade oitentista produz três bons discos "Lets Dance" com alguns de seus maiores hits radiofônicos e nas pistas, "Let's Dance", "China Girl" e "Modern Love".

Em 84 veio com o LP "Tonight", em 87 "Never Let Me Down Again". A década de 80 estava muito pasteurizada em termos sonoros e Bowie decidiu pegar pesado lançando sua própria banda o Tin Machine em 1989. Não foi bem aceito pela crítica, mas fez dois discos incompreendidos até hoje, porém com músicas pesadas com referências de hard rock e heavy metal e grandes músicos envolvidos. Bowie premeditou com o Tin Machine o que viria depois com a era "grunge". Não é à toa que os caras do Nirvana o adoravam.

Com o fracasso do Tin Machine, o camaleão volta às suas atividades normais pós "Lets Dance" e continuando criativo nos discos que se seguiram durante a década de 90, um dos melhores foi "Outside" de 1993, onde retoma sua parceria com Brian Eno. No novo milênio Bowie continuou surpreendendo com álbuns como "Heathen" em 2002, "Reality" em 2003 e seus dois mais recentes "The Next Day" de 2013 e agora "Blackstar".

Arte sem fronteiras

A música de Bowie nunca teve fronteiras, ele flertou com todos os estilos musicais. Lembro que recentemente comentei com um crítico da revista inglesa Mojo sobre a coincidência da música "Sue (Or In A Season Of Crime)" e "Cais" do Milton Nascimento. Realmente existe uma grande semelhança entre as duas, mas se levarmos em consideração que no Clube da Esquina, Milton e seus parceiros, beberam na fonte Beatles pra criar "Cais", Bowie não fugiu à regra, mera coincidência? Como eu disse, a música de Bowie flertou com o jazz, o blues, o hard rock, a música folk, a british invasion, o rock progressivo e a world music. Não havia limite no seu processo criativo. Seu talento não se resumiu somente a música.

No cinema revelou-se um ótimo ator, destaque para três de suas grandes performances: Em 1976 no filme "The Men Who Fell The Earth" (O homen que caiu na terra) - o papel perfeito para Bowie num science-fiction. Em 1983, participou do filme "The Hunger" (no Brasil "Fome de Viver") ao lado da diva do cinema francês Catherine Deneuve - um filme de horror erótico que se encaixava muito bem naqueles tempos góticos, com direito a uma performance de Peter Murphy e seu Bauhaus. Ainda em 1983, em um de seus melhores papéis, no filme "Merry Christmas Mr. Lawrence" (no Brasil "Furyo, em nome da Honra") ao lado do cultuado músico e ator japonês Ryuchi Skamoto. Uma história que se passa na segunda guerra mundial e mostra os efeitos de um flerte homossexual romântico, fantasioso e trágico entre os dois personagens.

Na década de 70 como produtor alavancou a carreira de três nomes importantes do rock. Primeiro foi o Mott He Hoople do sensacional Ian Hunter. Em 72 a banda estava decepcionada com o fracasso dos primeiros discos, mas Bowie os encorajou e compôs o hit "All The Young Dudes" assim como produziu o álbum homônimo, foi um sucesso absoluto. No mesmo ano de 72, ele e seu parceiro, o guitarrista Mick Ronson produzem "Transformer", um dos melhores discos da carreira de Lou Reed. Realmente podemos dizer que 1972 foi o ano mais produtivo e criativo da carreira de Bowie, pois além desses discos que ele ajudou a acontecerem lançou seu clássico "Ziggy Stardust".

Em 1976, Iggy Pop amargava ainda o fim de sua banda o Stooges e sofria depois de uma internação num hospital de doentes mentais, era um caso perdido. O socorro apareceu através do amigo David Bowie, que produziu e compôs com ele o repertório do álbum "The Idiot". Animado e com todo gás, no mesmo ano ainda com a ajuda de Bowie, veio outro clássico, o Lp "Lust for Life". Iggy estava salvo e voltava a ativa graças ao Bowie, uma dívida eterna.

David Bowie foi responsável por muitas mudanças na cena do rock e do pop, influencia gerações e sua memória continuará viva entre nós. Sua obra é eterna, muitos ainda têm muito que aprender com seu legado. Há alguns anos ganhou uma mega exposição que pra nossa sorte chegou ao Brasil no MIS (Museu da Imagem e do Som) em São Paulo. Foi uma aula para músicos e fashionistas. Seu guarda roupa foi o mais ousado da história do rock. "Ousadia", essa talvez seja uma das tantas palavras que podem descrever esse gênio - David Bowie.

Kid Vinil é músico, DJ, radialista e crítico musical. Mantém semanalmente um programa na 89 FM que reúne tendências, histórias e novidades da música.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Lobão volta com disco de inéditas e diz: ‘Todo roqueiro é conservador’


Primeiro álbum depois de uma década refaz conexão com o rock dos anos 1970


RIO - Ex-Lobão. Ex-cantor. Cantor de uma música só. Estes foram alguns dos epítetos que João Luiz Woerdenbag Filho, 58, viu associados a sua pessoa nos últimos anos, ao longo dos quais passou a dividir a atividade musical com a de bem-sucedido escritor de livros (a autobiografia “Lobão — 50 anos a mil”, de 2010, vendeu 80 mil cópias, e o livro de ensaios “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, de 2013, 50 mil). Ataques ao establishment da música brasileira, ao PT e à presidente Dilma Rousseff o afastaram de muitos de seus colegas, mas o aproximaram de expoentes de um novo conservadorismo político. No meio do turbilhão de um país “entregue a párias intelectuais”, ele agora chega pronto para a briga com “O rigor e a misericórdia”, seu primeiro disco de inéditas em dez anos, que tem lançamento marcado para o mês que vem.


— Eu não me defendo com o meu discurso, mas com a minha obra, com a minha excelência — diz ele, após a noite de autógrafos do seu mais novo livro, “Em busca do rigor e da misericórdia: reflexões de um ermitão urbano” (editora Record), no qual relatou o processo de composição desse disco.


















FEITO EM CASA

Realizado graças a um financiamento coletivo (que recentemente recebeu o prêmio “Criatividade em crowdfunding” do Digital Music Experience), o novo álbum foi gravado sozinho, em casa, por Lobão, que cantou, tocou todos os instrumentos e ainda pesquisou todas as sonoridades.


— Esse é o disco em que eu me reconcilio com a minha verdadeira formação, os anos 1970. E principalmente com o ano de 1971 — conta ele, que reouviu os álbuns de Yes, Led Zeppelin, Humble Pie, Deep Purple e Grand Funk Railroad daquele ano antes de começar a gravar. — Até o meu último disco (de inéditas, “Canções dentro da noite escura”), eu estava muito ligado nos últimos trends, Radiohead, música eletrônica. Quando veio o punk, todo mundo enterrou os anos 1970. Hoje, só quem tem uma pálida influência sobre mim dos anos 1980 é o Elvis Costello.

Para Lobão, “todo roqueiro é conservador”.


— Você quer o som de válvula, você quer aquela guitarra de 1954, é a nostalgia da modernidade da qual eu tenho falado há um tempo. O que aconteceu na nossa época foi que, quanto melhor é o som digital, mais parecido ele é com o analógico. É uma metáfora do conservadorismo, é preciso reter valores para evoluir — elucubra. — Você vê, os países mais loucos, mais de vanguarda, são todos monarquistas. Na Inglaterra tem os Beatles, tem o Radiohead, mesmo que eles sejam contra aquilo. A vanguarda brasileira ficou parada na estética modernista de 1922. Você tem o cabelo do Arnaldo Antunes, a Adriana Varejão, os caras enfiando o dedo no cu. É tão velho você querer fazer suruba nos anos 2015!


“O rigor e a misericórdia” tem apenas quatro pessoas em sua ficha técnica: Lobão, Regina Lopes (mulher do músico, que fez a produção executiva), João Puig (sobrinho de Regina, que fez a capa e o solo de guitarra de “A esperança é a praia de um outro mar”) e Giovani Oliveira, técnico de informática que chegou à casa de Lobão para instalar a placa de som no seu computador e acabou virando técnico de gravação, além de cuidar da masterização caseira das músicas (“e está mais legal do que se tivesse sido em Abbey Road”, diz).
Quer deixar Lobão mordido, é só dizer que “O rigor e a misericórdia” é um disco político.


— Ele não é panfletário ou de protesto. É um disco de arte, rigoroso, que eu não queria que ficasse datado. Tem duas músicas que falam especificamente sobre política (“A marcha dos infames” e “A posse dos impostores”), o resto é só filosofia, sobre o universo — assegura ele, que refletiu sobre a morte do pai em “Ação fantasmagórica” e a da cunhada em “A esperança é a praia de um outro mar”. — Não sou ativista, sou só um cidadão descontente. As pessoas esquecem que eu falava mal do Sarney (“O eleito”), do Collor (“Presidente mauricinho”), eu nunca deixei de ser essa pessoa atuante, não tive um surto e virei militante. O papel mais adequado do artista é ser de oposição.


Depois de disparar contra velhos e novos desafetos da MPB nas páginas de “Em busca do rigor e da misericórdia” (Caetano, Gil, Chico, o guitarrista dos Titãs e escritor Tony Bellotto e empresária de Caetano, Paula Lavigne, por sua atuação com o grupo Procure Saber), Lobão diz que seus ídolos da música brasileira são todos “dos 1950 para lá”: o violonista Garoto e os cantores Altemar Dutra e Nelson Gonçalves. Do rock, ele só livra a cara do Cachorro Grande (“que é uma banda excepcional, mas falta muito para ter o pau na mesa”) e Roger, do Ultraje a Rigor, com quem partilha a visão conservadora na política. — Estou doido para ele voltar a escrever e fazer uma parceria comigo, o Roger é o nosso Adoniran Barbosa.
O escritor e o produtor de discos convivem em Lobão numa espécie de “simbiose e sinergia”, o sucesso de um impulsionando o outro.


— A partir do momento em que comecei a escrever livros, melhorei como pessoa, como letrista. Sou um homem maduro hoje em dia, completamente desarmado de maneirismos. Não sou mais aquele Lobão muito louco. Eu não era aquilo. Hoje eu estou com senso de proporção, de respiração, de variedade... Transformo a raiva em algo positivo. A raiva é bem-vinda na medida em que não me destrói — discursa ele, que continua a correr pelo Brasil com seu espetáculo acústico, apesar das dificuldades de conseguir datas em algumas cidades. — Todo mundo vai com os livros aos meus shows. Não tem relação mais íntima de um artista brasileiro com seu público do que a minha. O livro não me deixa calar.



Entre os planos mais imediatos de Lobão estão os de fazer dois crowdfundings: um para viabilizar a edição dupla em vinil de “O rigor e a misericórdia” (com a inclusão de “O que é a solidão em sermos nós?”, que entra no CD em uma versão em espanhol) e outro para garantir a realização de uma turnê do novo disco. Mas, apesar do triunfo pessoal de ter feito o primeiro disco em que foi totalmente fiel a si mesmo, as suas perspectivas não são as mais animadoras.



— Se eu pudesse, eu teria ido para fora do Brasil, mas o meu nicho de trabalho e meu público estão todos aqui — desabafa. — Recebo ameaças de morte, tenho que matar seis leões por dia para ter um show... Seria muito melhor morar no Uruguai ou em Portugal, em qualquer outro lugar - Chora, Lobão!

Capital Inicial - Acústico NYC

terça-feira, 24 de novembro de 2015

De Zero a NX Zero: O que aconteceu com o rock nacional?

por Paulo Faria


Navegando pelo site de vídeos Youtube, fui surpreendido pela seguinte frase: “Um NX na frente do Zero ferrou com o rock nacional”. A frase em questão, num misto de sarcasmo e decepção, foi discorrida por um usuário daquele site referindo-se à clássica canção Quimeras da banda dos anos 80 Zero, contrapondo-se à banda dos anos 2000, Nx Zero.


















(Banda Zero)


A comparação feita por esse usuário não apenas sintetizou em seu comentário seu descontentamento pelos descaminhos da música brasileira, como também refletiu de forma irônica a insatisfação de muitos a respeito do rock produzido no Brasil ultimamente.

Há quem diga que nos últimos 30 anos o rock brasileiro vem se deteriorando, fragmentando; que hoje em dia não se produz mais o “verdadeiro” rock, e que tudo feito atualmente é sem “atitude”. 

Não será apenas saudosismo? Não será apenas nostalgia de pessoas que viveram os áureos tempos em que no país despontava dezenas e mais dezenas de bandas de rock do qual cada uma tinha seu espaço na mídia porque à época o mercado assim funcionava? Não será o caso dessas mesmas pessoas hoje terem dificuldade de assimilar o “novo”? Qual a diferença do rock produzido no Brasil lá nos idos dos anos 80 para o que é produzido hoje?

Primeiramente, se faz necessário analisar a concepção de clássico e averiguar brevemente a história do rock no Brasil. Clássico, segundo o Aurélio, é um adjetivo que entre outras coisas, quer dizer “de melhor qualidade”; “exemplar”. Sendo assim, pode-se afirmar com certeza de que a maioria do que se produziu de rock no Brasil até 1990 se encaixa dentro da concepção de “clássico”.

O rock brasileiro não nasceu nos anos 80, mas teve seu grande “boom” naquela década. Nos anos 60 já havia certa ousadia, e muita coisa que se produzia até então flertava com o rock que se produzia lá fora. Celly Campelo, Roberto Carlos e Erasmo Carlos exibiam em suas canções nuances do rock n’ roll, porém, com características tropicais. O rock brasileiro dava seus primeiros passos.

Nos anos 70 a cena fica mais endiabrada e grupos e artistas como Raul Seixas, Casa das Máquinas, Mutantes, O Terço, dão uma cara “mais rock” às composições, e o Brasil, enfim, começa a ser representado pelo seu próprio rock. Porém, ainda não existia uma “unidade coletiva”, um “movimento organizado”; tudo ainda era muito isolado, e o mercado musical insistia em não reconhecer o rock como grande produto a ser investido comercialmente. O Brasil vivia ainda no auge da ditadura militar, o que evidentemente inibiu o nascimento de algo mais coeso.
No final dos anos 70 o mundo foi arrebatado pelo “movimento punk” da Inglaterra, o que encorajou jovens de todas as classes sociais a assumir uma postura ideológica, e por que não, montar uma banda. No Brasil não foi diferente.

A dificuldade econômica não impedia que discos importados chegassem às lojas brasileiras e que bandas estrangeiras dessem o ar da graça por aqui. Van Halen, Alice Cooper e Queen, foram algumas das primeiras bandas de rock a tocarem no Brasil. O mercado começava a se expandir, e a luta de todos os setores da sociedade pelo fim do regime antidemocrático deu o combustível necessário para a grande explosão do rock brasileiro. A Blitz, de Evandro Mesquita, foi a que abriu as cortinas para todo o movimento que seria conhecido como o “rock oitentista”.

O mercado fonográfico, com o sucesso da Blitz, mais do que rápido arregalou os olhos para a galinha dos ovos de ouro que seria a música rock. Com isso, investiu-se maciçamente no estilo e o que se viu foi uma enxurrada de bandas de todos os seguimentos dentro do rock ‘n’ roll inundando a cena: pop, punk, pós-punk, heavy metal, new wave… Enfim, o rock brasileiro amadurecera e então criava-se um conceito de rock brasileiro do qual todas as bandas procuravam ser melhores do que podiam ser, fossem nos arranjos, fossem nas letras. Existia até uma rivalidade entre elas, muita das vezes, não velada.

A cena roqueira dos anos 80, ao contrário do que existe hoje, não era apenas um monte de bandas tocando. Era sim, como já foi dito, um conceito musical onde cada grupo exibia sua estética peculiar, sua identidade, e às suas maneiras, levantavam suas bandeiras políticas, sociais e amorafetivas. O movimento não era estéril e banalizado, mas sim, consistente e profundo.

Na primeira fila destacavam Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, RPM, Engenheiros do Hawaii e Ultraje à Rigor. Na segunda e terceira filas estavam aquelas que embora não fossem campeãs de vendas ou de exposição, foram responsáveis por enriquecer ainda mais a cena: Rádio Táxi, Capital Inicial, Ira!, Plebe Rude, Kid Abelha, Lulu Santos, Biquíni Cavadão, Camisa de Vênus, Heróis da Resistência, Uns e Outros, Nenhum de Nós, Hojerizah, Varsóvia, Finis Africae, Léo Jayme, Arte no Escuro, Cabine C, Salário Mínimo, Magazine, Harppia, Golpe de Estado, Metrô, Os Replicantes, Inocentes, Garotos Podres, A Chave do Sol, Inimigos do Rei, Azul Limão, Patrulha do Espaço, Kiko Zambianch, Picassos Falsos, Voluntários da Pátria, Richie, Egotrip, Vzyadoq Moe, Violeta de Outono, Muzak, Escola de Escândalos, Sempre Livre, Sexo Explícito, Ratos de Porão, Zero (já citada nesse artigo) e muitas, muitas mais…


















(Banda Egotrip)


É claro que no mesmo período também surgiram algumas coisas de gosto duvidoso, mas, num contexto geral, com tantos grupos disputando a tapa o tão concorrido espaço, ainda prevaleciam a originalidade, a identidade própria, pois cada banda soava de forma individual, mesmo que as referências musicais de cada uma fossem as mesmas (o rock britânico, por exemplo).

Os anos 90 foram a ressaca. Com a explosão de criatividade, qualidade e quantidade de grupos surgidos na década anterior, era evidente que o mercado estagnaria. Muitas bandas que brilharam nos anos 80 participando até de programas do Faustão, Angélica, Gugu, Xuxa (sim meus caros, essa galera já tinha seus programas há 30 anos…), saíram de campo.

Mas o fogo não havia se apagado completamente. De uma pequena centelha surgiriam ainda grupos com traços de originalidade nos anos 90: Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi, Skank, Los Hermanos são algumas.















(Nação Zumbi)



Com a chegada do século XXI, parece que a criatividade e a inteligência hibernaram ou entraram de férias. Ao longo de 10 anos, nenhuma banda nascida nos anos 2000 foi capaz de produzir um disquinho sequer relevante. Algumas bandas até se esforçaram, mas no geral, o que foi feito ao longo de uma década foi medíocre, ordinário, inútil e pueril. Não por acaso, os álbuns que mais se destacaram naquela década foram lançados pelos veteranos dos anos 80. Eis alguns: Surfando Karmas e DNA (2001), Engenheiros do Hawaii; Longo Caminho (2002), Paralamas do Sucesso; Rosas e Vinho Tinto (2002), Capital Inicial; Só quem Sonha Acordado vê o Sol Nascer (2007), Biquíni Cavadão; e os excelentes O Quinto Elemento (2007), Zero; e Canções de Amor e Morte (2007), Uns e Outros. Ou seja, teve que a velha guarda do rock brasileiro entrar em campo pra salvar a década da mediocridade musical.

Mas tamanha infertilidade tem lá sua explicação. Com a democracia mais fortalecida, com a economia ajustada e com melhor distribuição de renda, toda a criação dos anos 2000 fora apenas um reflexo das pretensões e aspirações artísticas de seus criadores. Se não existe mais repressão política e o amor e sexo estão banalizados, contestar e romantizar pra quê? Além do mais, não é preconceituoso dizer que num país iletrado como o Brasil, num país onde Educação não é prioridade, não dá pra esperar nada de relevante em relação à arte. O que temos produzido em todas as esferas musicais do mainstream no Brasil é puro lixo; produto da nossa deseducação e o apreço pela mediocridade.

No livro “A Era do Vazio”, Gilles Lipowetsky faz uma análise profunda da pós-modernidade e o que ele expõe é como a arte em geral está se fragmentando indo cada vez rumo ao vazio. O traço de substância estética e “concreta” que tínhamos ontem, cada vez mais vai se tornando artificial e estéril. Nada dura, nada se retém. Sua consideração faz sentido, afinal, quantas Legião Urbana e quantos Drummond de Andrade se veem surgindo hoje em dia? Ele ainda afirma que o pós-modernismo não passa de um outro nome para designar o declínio moral e estético da nossa era; que os produtos culturais são industrializados, subordinados aos critérios de eficácia e de rentabilidade, ou seja, são feitos unicamente com a finalidade de serem comercializados.

Outro escritor, Simon Reynolds, autor do livro “Retromania” (ainda não lançado no Brasil), esclarece que de tempo em tempo têm-se um “revival” na música, mas que os anos 2000 foram marcados pelo “fiasco” e que chegamos ao “fim da linha” da criação artística.

Já Karl Max disse que tudo é feito para ser desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante, sempre adiante, talvez para sempre, sob formas cada vez mais lucrativas.















(Uns & Outros)

Entrevista Dinho Ouro Preto: 'Há muito talento no rock nacional, mas bandas não atingem o público'


Com o novo trabalho do Capital Inicial, o DVD 'Acústico em NY', nas lojas, cantor Dinho Ouro Preto reflete sobre a situação política, brinca sobre o meme do 'Norvana' e fala sobre o atual mercado da música, dominado pelo sertanejo:











Um registro acústico não é novidade para o Capital Inicial. Em 2000, a banda lançou o "Acústico MTV", que marcou nova fase da carreira do grupo. Agora, volta ao formato desplugado com um DVD gravado em Nova York, no Terminal 5. Mas em vez de preparar um repertório apenas com clássicos, Dinho Ouro Preto e seus companheiros decidiram pôr foco nos últimos trabalhos e mostrar material inédito. O vocalista fala mais sobre a decisão de viajar aos EUA para lançar este novo material.


Como vocês decidiram gravar um DVD em Nova York?
No início, tínhamos duas ideias: gravar em um ambiente claro, ao ar livre, ou em um lugar escuro, mais urbano. Nossa primeira opção era Fernando de Noronha, mas esbarramos em um monte de obstáculos ambientais. Eram regras bem rígidas, que encareciam o projeto. Fomos para o plano B e começamos a pensar em um ambiente urbano. Porra, cara, qual o centro mais urbanoide da Terra, com as maiores multidões e os maiores arranha-céus? Nova York. Começamos a cotar e vimos que o valor não era absurdo. E a maior ironia é que, quando pagamos tudo, o dólar estava barato. Quando finalmente abrimos as bilheterias do show, o dólar estava trabalhando a nosso favor. No fim, custou menos do que se tivéssemos feito algo parecido no Brasil. Sobrou até uma grana para a pós-produção.
O público era formado só por brasileiros ou você viu alguns americanos também?
O grosso era de brasileiros mesmo. Uns 10% saíram do Brasil para ver o show lá. Os outros 90% fazem parte dessa diáspora brasileira, gente que vive em um exílio econômico nos Estados Unidos. Veio gente de todos os Estados. Pessoas da Califórnia, Texas, Flórida estavam lá... E tinha alguns americanos também. Muitos casais. Conheci uma mulher brasileira que casou com um americano e levou o marido para ver o show, por exemplo.
Vocês estão na estrada há bastante tempo. Olhando para o rock brasileiro agora e na época em que vocês começaram, o que mudou para pior? E para melhor?
Sou um militante do rock brasileiro. Vejo qualidade, vejo um monte de bandas que gosto. Vejo o mesmo talento desde quando começamos. Só não vi um novo Renato Russo. Acho que essas bandas têm mais dificuldade em chegar ao grande público. Existe uma barreira, que é essa avalanche monocromática da música sertaneja. Somos um país plural. Aqui se faz de tudo. O pessoal precisa se dar conta da qualidade do nosso rock. Meu conselho a essas bandas é o seguinte: não desistam. Nós passamos por imensas dificuldades. Quando era garoto, pensei em desistir várias vezes. Mas resisti. Então vale a pena resistir, porque vejo muito talento por aí.
Você sempre teve uma postura crítica sobre política. Como você vê a situação atual do país?
Outro dia vi um vídeo em que o ex-senador Eduardo Suplicy foi quase agredido. Achei aquilo um ultraje. Fiquei envergonhado. Não sou petista. Não voto mais no PT. Votei na Marina na última eleição. Mas sou contra essa atitude bipolar. Vejo qualidades e defeitos tanto no PT quanto no PSDB. Sou contra a demonização e a santificação tanto de um quanto de outro. Penso que o PSDB poderia trazer mais estabilidade para a moeda, e o PT tem uma consciência social maior. Mesmo sendo contra essa fome de poder do PT, contra essa ganância, acho injusto a criminalização do partido. Gostaria também de ver políticos que pensem mais na sustentabilidade, que tenham uma consciência ecológica maior. Por isso sou a favor da alternância do poder.
Em 2013, você publicou um tuíte sobre o Nirvana, mas escreveu 'Norvana', e ele acabou viralizando. Você leva o episódio na brincadeira ou fica chateado com a reação?
Aquilo foi um erro de digitação. Volta e meia eu erro. Eu levo na esportiva. Na verdade, não estou nem aí. Podem zoar.

Empoderamento feminino no punk foi tema de evento realizado no Rio de Janeiro


por Lary Durante do Nada Pop
Fotos: Luiza Alves e Priscilla Monteiro



No 8 de novembro, ocorreu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, um evento organizado e totalmente protagonizado por mulheres titulado de “AH QUE ISSO ELAS ESTÃO EMPODERADAS!”, produzido pelo coletivo feminista chamado Tiamät.







Tive o prazer de comparecer, e tocar nesse evento lindo, então resolvi compartilhar com vocês essa experiência, tudo o que vi e senti naquele momento tão especial de empoderamento feminino. Nos olhos de cada garota do coletivo ficou explicito a alegria e o prazer de estar produzindo o evento, tudo foi construído com muito amor, união e com uma riqueza de detalhes impressionante, cada cartaz feito manualmente, cada objeto de decoração, tudo minuciosamente pensado.
Correria, união, todas se ajudando para decorar, arrumar, e organizar tudo em tempo hábil para início das atividades e tcharam! Tudo pronto, tudo lindo, e as pessoas começavam a chegar, circulando pelo pico, a cada minuto mais mulheres chegando e então se deu o inicio as atividades pontualmente às 15h. Todas reunidas em uma sala para iniciar o debate que trouxe o tema “Protagonismo Feminino na Cena Punk”, e esse para mim foi o ápice desse evento. Entre risadas, choro, emoção, seriedade e arrepios, cada declaração, cada levantamento, cada pontuação foram recebidos com olhares curiosos e ouvidos bem atentos por todas as presentes.
Senti que cada declaração soou como um tapa na cara, ou até mesmo uma porrada no estômago daquelas de faltar o ar, senti vontade de levantar e abraçar aquelas mulheres depois que tive conhecimento e ouvi aquelas histórias de superação. Mulheres que sofreram abuso, violência e estavam lá, em pé e de cabeça erguida, firmes e fortes, dispostas a ajudar outras mulheres. Dispostas a empoderar, dar voz e força a aquelas que não conseguem por “n” motivos se livrar, expor aquilo que muitas vezes as fizeram chorar escondido.
De fato, isso tocou em uma ferida aberta, e também mostrou a cada uma delas que elas não estão sozinhas nessa luta contra o machismo e a opressão, parece clichê, mas não minha amiga, não é! “Forte e grande é você!”. Sai dali com as energias renovadas, como se tivesse tirado um peso de 100 toneladas das costas.
Em seguida, apresentou-se a banda Ostra Brains (RJ), agitando a galera com seu punk rock ácido. A voz marcante e rasgada da vocalista Amanda Hawk misturou- se com os riffs e grooves muito bem executados, resultando em uma apresentação energizante! A sonoridade me lembrou duas bandas que eu gosto muito: L7 e Vice Squad.
Na sequência tocou a banda Ratas Rabiosas (SP), e dessa eu sou suspeita pra falar. Então sem mais delongas, o show foi papo reto.
Entre uma apresentação e outra rolava muito som e agitação com a DJ Carol Oliveira, com sua alegria e simplicidade colocou todo mundo pra dançar. As exposições de artes ficaram por conta da Luana Beez e Camila Novelo, que não estava na programação, mas chegou chegando, do jeito que tem que ser, ambas nos apresentaram trabalhos de excelente qualidade, que chamou a atenção do publico presente.
Alem de zines e materiais independentes, também rolou um bazar com roupas, sapatos e acessórios lindos a preço justo, também contamos com a presença das meninas do Maracujá Roxa e Cabeça Tédio, que expuseram seus materiais lindamente.
Após o show da Ratas Rabiosas, rolou uma palestra muito interessante sobre Veganismo Popular, com a Lauren Baqueiro, que de maneira simples nos mostrou que é possível fazer um rango vegano delicioso em casa. Aliás, toda a alimentação do evento foi vegana, e cá prá nós, estava tudo muuuito delicioso!
E para fechar com chave de ouro, rolou o show da banda Framboesas Radioativas (SP), um power trio feminino riot grrrl que fez uma apresentação incrível, de qualidade musical e atitude incontestável.
E assim foi, casa cheia, energia positiva, respeito, amizade, cumplicidade e acima de tudo empoderamento feminino! Mulher negra, branca, amarela, mestiça, gorda, magra, alta, baixa, cabelo longo, curto, crespo, liso, mulher nova, madura, mulher com mulher, mulher por mulher!
Esse evento só ressaltou o que todas nós já sabíamos… Juntas somos mais fortes! Bem mais fortes.





Nação Daltônica: ‘Música sem substância é um reflexo da falta de leitura do povo’


Entrevista Philippe Seabra:

















Líder da Plebe Rude, uma das bandas mais influentes do rock nacional, o vocalista e guitarrista Philippe Seabra, 48, é uma das principais vozes de um período da música brasileira que produziu nomes como Legião Urbana e Inocentes. Com um novo disco de estúdio, “Nação Daltônica”, o primeiro em quase nove anos, Seabra fala sobre a Plebe, a situação atual da música no Brasil e a falta de perspectiva em um mercado dominado por artistas e canções descartáveis.




“Nação Daltônica” é o primeiro disco de estúdio desde 2006. Por que tanto tempo entre os dois lançamentos? 

A Plebe Rude sempre faz muita coisa, mas nem sempre isso aparece. Em 2011, lançamos o DVD “Rachando Concreto Ao Vivo”, que foi indicado ao GrammyLatino, e passamos por lugares em que nunca tínhamos tocado antes, como Manaus. Estive envolvido também em três filmes: “Somos Tão Jovens”, o documentário “Rock Brasília” e “Faroeste Caboclo”. Além disso, produzo outros artistas.

Você surgiram quando várias bandas de rock nacional tocavam nas rádios. Agora, o rock sumiu das rádios, que tocam pop e sertanejo. Como você vê essa mudança? 

A Plebe Rude surgiu em 1981. Nessa época, não havia muitas coisas com as quais os jovens podiam se identificar. Não tinha música jovem tocando na rádio. A década de 1990 foi o momento em que o videoclipe se consolidou. E surgiram os artistas com mais senso estético do que propriedade. E isso foi muito nocivo, porque as grandes gravadoras deixaram de apostar em artistas novos. Hoje, estamos vendo o fenômeno do cover. Pessoas saem de casa para ver bandas cover. Mas elas se esquecem de que essas músicas já foram desconhecidas um dia. Estou envolvido em uma batalha com casas noturnas para que elas deem chance a novos artistas. Como produtor, vejo bandas muito boas. Mas me dói saber que pouquíssimas terão espaço. Uma banda depender de reality shows, ou de concursos, para aparecer é muito triste. Fico me perguntando se hoje alguém daria uma chance para Renato Russo, um cara de óculos, meio esquisito. Não tenho nada contra o pop, que é um mal necessário. Não é como o funk ostentação, que você ouve e sabe que chegou ao fundo do poço. Mas antigamente havia um contraponto à música pop. Hoje, não. E essa música sem substância é um reflexo da falta de leitura da população, que cresceu vendo programas pobres de TV. O brasileiro quer tudo mastigado. Acabou ficando acostumado com porcaria. Será que quando surgir algo realmente bom, ele vai conseguir identificar? Eu sinto saudade da pureza da música, algo que faz falta no mainstream, hoje.

O disco saiu em um momento de grande agitação política. O lançamento nesse período foi proposital? 

Brincamos dizendo que o Brasil finalmente alcançou a gente. Não somos oportunistas. Não vamos dizer que nos inspiramos nas manifestações. Isso tudo é entretenimento, ver artistas se reinventando como blogueiros polêmicos. Nós podemos olhar para trás e dormir com a consciência tranquila. Claro que isso vem com uma certa responsabilidade. Hoje, vemos governadores que são fãs da Plebe, gente com poder de decisão que cresceu ouvindo nosso som. Espero que eles possam manter esse discernimento. É isso que a gente espera como cidadão. Nossa obra continua relevante, mas só agora o Brasil está acordando. Como a internet mudou sua maneira de trabalhar? A promessa da internet não se cumpriu, não nivelou o campo. É uma ferramenta imprescindível, que ajuda no trabalho de base, de conquista dos fãs. Eu não uso “auto-tune”, porque cria algo falso. É triste quando a banda não corresponde ao vivo. E vemos muitos artistas que não estão prontos para aparecer. Vejo bandas de pop meio genérico, indefinível. Como trabalhar uma fama insossa, instantânea? É um pouco triste o que está acontecendo com o rock.