quinta-feira, 23 de março de 2017

O esquecido e genial disco “A sociedade da grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez”




















Em 1971, um quarteto de músicos praticamente anônimos gravou um discaço recheado de humor e transbordante criatividade. A ideia de “A Sociedade de grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez” foi de Raul Seixas, na época produtor da gravadora CBS, que convocou seu conhecido da Bahia, Edy Star, e o capixaba Sérgio Sampaio. Em 1970, Sérgio havia acompanhado o músico Odibar em audição na CBS e ambos tornaram-se parceiros musicais e amigos.
Faltava uma mulher para completar o time e a escolhida foi Miriam Batucada, que era a mais conhecida do quarteto por suas participações em programas televisivos com sua habilidade de batucar com as mãos. Mesmo com várias letras censuradas, o disco saiu e foi distribuído para as rádios e jornais, mas depois de 15 dias foi recolhido pela gravadora CBS sem maiores explicações. O mito de que o disco foi recolhido porque foi gravado clandestinamente e sem conhecimento da gravadora já foi desmentido por Edy Star, único kavernista ainda vivo.

Nossos encontros eram normais. Algumas pessoas pensavam, e até hoje pensam, que éramos um tipo de sociedade secreta por causa do nome [risos]. Tem quem ache que éramos maçons. Era tudo sempre divertido. Não tinha machismo. Raul era um hetero casado, Sérgio era um hetero namorador, mas um cara mais do samba. Eu era essa bicha enlouquecida e solta na vida, e a Miriam era a fanchona do grupo [gíria para lésbica]” , Edy Star relembra as gravações do disco em entrevista ao portal UOL no ano passado.
Edy Star (primeiro à esquerda), Raul Seixas (primeiro à direita), Sérgio Sampaio (acima) e Miriam Batucada (no centro) na época da gravação do álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” (fonte: UOL)







Alguns discos lançados na época como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, e Freak out! (1966), da banda The Mothers of Invention, liderada por Frank Zappa, inspiraram o experimentalismo do quarteto. Se os gringos faziam a cabeça dos quatro, eles também misturaram música brega, jovem guarda, samba, baião e outros ritmos brasileiros.

Raulzito atravessava uma fase de ostracismo e compunha canções para outros artistas, como a cantora Diana e Jerry Adriani. Se a Philips era a casa dos medalhões da MPB, a CBS, onde Raul trabalhava com produtor, lançava discos de “uma linha mais zé povinho, era a fábrica de ilusões”, define Raul no documentário Dossiê Kavernista de Luiz de Magalhães. Sérgio Sampaio não se conformava em conviver com o vulcão criativo Raul Seixas meio adormecido e o incentivava à retomada de sua carreira de cantor e compositor.
No disco, os dois baianos, um capixaba e uma paulista ironizam o nascente showbiz brasuca em seu principal centro, o Rio de Janeiro. Na faixa “Quero ir”, os músicos estão preparados para abandonar o Rio após o “fracasso”: “eu vou pra Bahia ou volto pra Cachoeiro de Itapemirim”, ou seja, Edy Star e Raulzito voltariam ao seu estado natal e o capixaba Sérgio Sampaio a Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal de Sérgio e do rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos.
Os dois baianos do quarteto, Edy e Raul, se conheciam há tempos, ainda adolescentes, os papos giravam em torno de rock e James Dean quando Raul era o presidente do Elvis Rock Club. Mais tarde, ambos se trombavam em suas andanças pelas rádios da capital baiana.
Depois do (semi) lançamento do disco, Raul permaneceu por pouco tempo em seu cargo na gravadora CBS e se desligou em 1972. O álbum ganhou diversas reedições ao longo dos anos, sendo a última em 2010 pela Sony Music.
No documentário Dossiê Kavernista, Edy Star relembra que um dos diretores da CBS passou um ríspido sermão sobre os possíveis motivos do fracasso do disco, “não fizemos nada, saímos de lá, fomos queimar um fumo e dar risada”.

Ouça “A sociedade de grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez” (completo):

terça-feira, 7 de março de 2017

7 histórias pouco conhecidas de Renato Russo

Conheça as facetas polêmicas, sensíveis e até cômicas do líder da Legião Urbana, que morreu em 1996
Por Felipe van Deursen


1.A turma de Brasília
Em 1978, Renato Russo formou o Aborto Elétrico, ao lado dos irmãos Fê e Flávio Lemos, primeiro fruto musical do grupo de amigos brasilienses que se denominava a “Turma da Colina”. Com o fim da banda, Renato Russo viu que podia brilhar sozinho. E descobriu seu poder de manipulação.
Por Fê Lemos, do Capital Inicial:
“Ainda nos anos 80 – quando o Renato deu aquela declaração de que ‘pra tocar no Hollywood Rock é que existem bandas como o Capital’, dizendo que a Legião nunca faria isso, perguntei a ele sobre a história de Brasília, de termos sidos tão companheiros, se ele olhava (para trás), se aquilo tinha algum significado pra ele… Ele falou: ‘Fê, aquilo passou, cara. Já era’.
E eu ainda era muito apegado àquela história de ‘turma’, de companheirismo, de ficarmos unidos por um objetivo. De repente, ele já estava muito distante disso, percebendo o papel e a importância dele – estava bem claro o quão famoso ele era e que aquela história era só parte do passado. E não adiantava querer forjar uma aliança baseada no passado porque as condições do presente eram diferentes.

Nada ficava ao acaso (para o Renato). Ele sempre planejou e analisou tudo. Outra vez li na BIZZ que ele disse que uma menina tinha apanhado com um cacetete elétrico e perdido o filho, por isso a banda se chamou Aborto Elétrico. Encontrei com ele e perguntei: ‘Pô, por que você falou aquilo? É mentira…’ E ele disse: ‘Não importa, você tem de inventar!’ São os factóides, né? É saber o que falar para criar impacto.”
2. Punks de Brasília e punks de São Paulo
“O Rio parecia um lugar mais família. São Paulo dava um certo medo”, disse Renato em entrevista à BIZZ em 1989. Apesar de pesquisar como podia o movimento punk, rasgar camisetas e pintar o cabelo, Renato Russo tomou um choque quando resolveu ir para São Paulo com a Legião Urbana a partir de 1982. Em entrevistas, chegou a confessar que “morria de medo” dos punks de São Paulo. Drogas pesadas e violência eram ingredientes imprevistos na receita dos amigos de Brasília.
Por Clemente, do Inocentes:
“O movimento punk, não só pro Renato, mas para todo mundo de Brasília, era coisa de amigos. Em São Paulo, era coisa de gangue. Lembro que, na época, o Dado Villa-Lobos apareceu no bar em frente ao (bar punk paulistano) Napalm. Meu, todo mundo parou de conversar e olhou pra ele querendo dar porrada. Tive de pular na frente e falar: ‘Calma, gente, ele está comigo!’.
Naquela época, se você viesse a São Paulo, ia ver os punks de um lado, do outro os metaleiros e também os new waves. Era tribo mesmo, não tinha nada misturado. Era treta mesmo, droga rolando, gente se picando, era tudo de verdade. Entre nós e o pessoal de Brasília, ficaram claras várias diferenças. Quando a gente via os shows da Legião Urbana, naquela época, tinha um certo choque de propostas. O pessoal todo que vinha de Brasília tinha outra vida, eram pessoas que já haviam morado fora do país. E nós éramos um bando de moleques de periferia, eu passava às vezes duas semanas sem aparecer em casa, enquanto aquele pessoal já tinha mais estrutura familiar. Claro que muita gente daqui olhava para a Legião com nariz torcido, nem tinha como ser diferente.”
3. Homossexualidade
Apesar de já insinuada em “Soldados” e “Daniel na Cova dos Leões”, a homossexualidade de Renato só foi assumida publicamente em 1990, em um Entrevistão da BIZZ: “Eu estava precisando me assumir havia muito tempo. Mas fica aquela coisa, filho de católico, ‘você é doente’ etc. (…) Sei que sou assim desde os 3, 4 anos”. Curiosamente, o que não era novidade para amigos e colegas músicos só foi informado à família Manfredini poucos meses antes do público. Dona Maria do Carmo, a Carminha, sustenta que o cantor era bissexual (“O que é bem diferente de ser homossexual”) e que nunca havia desconfiado da orientação do filho famoso até aquele almoço marcante.
Por Dona Carminha Manfredini, mãe de Renato Russo:
“Era um dia de semana qualquer, sem nada de especial, no final dos anos 80. Me lembro que eles lançavam o disco As Quatro Estações [1989]. Estávamos na cozinha de casa, apenas nós dois, preparando o almoço. O Júnior veio, me deu um beijo e falou: ‘Mãe, preciso conversar com a senhora’. Fiquei tão feliz – pensei que ele finalmente anunciaria seu noivado com uma namorada que ele tinha já havia muito tempo. Mas ele afirmou: ‘Não vou me casar com ela. Vou me assumir. Quero me relacionar com homens e mulheres’.”
4. Tretas com a gravadora
Num caso raro na indústria fonográfica, todos os discos da Legião Urbana foram lançados pela mesma companhia, a multinacional inglesa EMI. As regalias (como adiantamentos vultosos e liberdade total no estúdio) eram recompensadas com vendas gordas: até 1996, foram quase 5 milhões de cópias e, desde então, mais alguns milhões em trabalhos póstumos. Entretanto, a relação azedou em 1991 quando, sem material novo para lançar, a gravadora conspirava publicar uma coletânea de sucessos do grupo.
Por Jorge Davidson, ex-diretor da EMI:
“A EMI precisava lançar algo da banda. E queria fazer uma compilação, uma coletânea de sucessos. Fizemos então uma reunião, tarde da noite, na sede da companhia, em Botafogo, para tentar selar a paz. Parecia tudo certo ao final, mas eles saíram dali pichando as paredes, da sala da presidência às escadas…
Eles eram muito desconfiados. A partir do momento em que assinei com a banda, em 1984, eu vivia contando com a possibilidade de eles fazerem como os Sex Pistols e rescindir o contrato antes mesmo de estrear em disco… Mas, pensando bem, até que minha experiência com eles foi muito agradável, com exceção desse incidente. O Renato sempre foi respeitoso em relação à EMI. Era o Bonfá que o impulsionava a fazer malcriação.
Renato Russo foi o artista mais importante de sua geração. Quando os Paralamas estavam gravando o primeiro disco, Cinema Mudo (1983), eu estava adorando a música ‘Química’ e perguntei ao Herbert: ‘Essa é tua também?’ E ele me disse: ‘Não, essa é do Renato. Ele é tudo o que eu gostaria de ser’. Pô, o cara era foda e queria ser o outro!
5. O lado comédia
Renato podia falar por horas de poesia, cinema, pintura e clássicos do rock. O que só seus amigos mais íntimos conheciam era seu senso de humor trash e seu lado cafona (este, um pouco mais célebre graças às covers de Menudo e do disco Equilibrio Distante). Um desses amigos era o ator Maurício Branco.
Por Maurício Branco, ator:
“Renato era o meu melhor amigo – e um cara muito preocupado com os amigos. Renato ficava muito sensível a tudo o que acontecia no mundo. O cúmulo foi quando as revistas noticiaram que a Xuxa estava com depressão. Ele virou pra mim e disse: ‘Tô tão chateado, Maurício…’ Eu não agüentei e tive que dizer: ‘E o que você tem a ver com isso?’ (risos).
Quando estava de bom humor, Renato era ótimo. Ele gostava muito de rir. Nas festas que promovia em casa, era muito comum ele interpretar um personagem, uma suburbana… Era muito engraçado vê-lo falando como uma lavadeira! Além do mais, ele gostava de passar um filme brasileiro de sacanagem e de me ouvir cantando ‘Justify my Love’, da Madonna, com meu inglês macarrônico.”








6.Aids
Renato assumiu sua homossexualidade durante uma viagem aos EUA em novembro de 1989 – quando conheceu o circuito gay americano, como a Christopher Street de Nova York e o Clube Castro de São Francisco. Em Nova York, iniciou seu relacionamento mais duradouro, com o americano Robert Scott Hickmon (“loirinho, cara de estivador”, “um gay de carteirinha”, conforme explicou à extinta revista gay Sui Generis). Com ele, entrou em sua fase de consumo de heroína. Na mesma viagem, também reencontrou uma velha amiga, Leonice Coimbra. Ela seria uma das primeiras a saber, alguns meses depois, que o artista havia contraído o vírus da aids.
Por Leonice Coimbra, artista plástica:
“Lembro exatamente do dia em que Renato me disse que tinha o HIV. Estávamos em Brasília, em 1990. Ele foi até minha casa. Abri a porta, ele me abraçou e me disse que estava positivo, que estava com aids. Eu soube desde o início, ele estava com o exame na mão. Era uma situação complexa, um choque para ele e para qualquer pessoa, porque era como se Renato, naquele momento, descobrisse que estava com os dias contados. Na hora, só pensei em como poderia ajudá-lo.
Pouco tempo antes de ele descobrir que tinha o vírus, nos encontramos em Nova York, no final de 1989. Meu marido havia ido a uma assembléia-geral na OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington. Fui junto e resolvemos ficar mais três meses. Eu e meu marido alugamos um apartamento e, logo depois, o Renato foi até lá e pediu para morar com a gente. A gente fazia vários passeios, andávamos no Central Park, íamos a livrarias.
Lembro que era inverno em Nova York, um frio horroroso. Teve um dia em que estávamos no West Side, andando por uma daquelas ruazinhas e, de repente, encontramos um mendigo numa praça. Ele estava com uma placa na qual se lia que ele tinha perdido o emprego, a casa, a família, vivia nas ruas e estava com aids. Na época, não havia esse fantasma na vida do Renato. Mesmo assim, ficou muito comovido, foi até lá e deu 100 dólares ao mendigo.
Naquela época, Renato se envolveu com Robert Scott Hickmon, que não cheguei a conhecer – ele apareceu depois que fomos a Washington e quando o Renato foi ao Rio. Não lembro se ele me disse se pegou o HIV do Scott ou não (em matérias publicadas na imprensa, atribuiu-se a Leonice a declaração de que ‘Renato tinha certeza que havia pego HIV do Scott’ e que o namorado anterior do americano era doente terminal de aids e de que Renato teria se envolvido com ele sabendo disso). Se tenho um amigo que está com esse tipo de problema, isso na hora não é importante. Só pensei em ajudá-lo, não importava de quem tivesse pego o vírus.”







7. A última briga
Quando A Tempestade (Ou o Livro Dos Dias) foi lançado, em setembro de 1996, já se alastrava o boato de que Renato estaria doente. Dizia-se que o clima no estúdio tinha sido tão pesado que as gravações foram terminadas apenas por Dado Villa-Lobos. “Foi uma questão musical que descambou para o pessoal”, explicou na época. “Renato às vezes não sabe lidar com as pessoas.”
Por Dado Villa-Lobos
“Entramos em estúdio pela última vez em março de 1996. Renato estava um tanto ansioso e com muita vontade de botar tudo para fora. Tanto que a gente planejava lançar um álbum duplo (a segunda parte sairia em 1997, como Uma Outra Estação). Fomos até junho, gravando todo dia. Eu estava produzindo, então tinha de coordenar pessoas e horários.
A voz do Renato vinha fraquejando, mas ele estava bem, comunicativo – era bom para ele estar no estúdio. Mais para o fim, ele foi ficando de saco cheio, as variações de humor eram muito grandes. Sua saúde debilitada lhe dava um grande mal-estar.
Estava tudo no esquema até que a gente brigou. Ele com sangue italiano, eu também… Ele vinha questionando meus métodos de mixagem… Até que um dia, Renato chegou e disse: ‘Ó, fiz a minha parte, vai aí e mixa o disco!’. Aí foi um mês dando gelo nele e ele me dando um gelo. A mixagem foi feita sem corpo presente – a gente ainda se falou por telefone, mas ficou aquela coisa mal-resolvida.
Eu não sabia que o Renato estava naquele ponto (da doença). As notícias da ciência eram boas, ele estava tomando o coquetel. A gente só se falava por telefone, tarde da noite – Renato falava puto, revoltado, mas vibrante. A Tempestade saiu e logo depois ele morreu. Fomos pegos de surpresa pelo comunicado. Ouvindo o disco, a gente vê como era claro esse caráter de adeus. Algo que nós só perceberíamos depois.”
Depoimentos a: Cristiano Bastos (dona Carminha Manfredini); Paulo Terron (Fê Lemos); Ricardo Schott (Clemente, Leonice Coimbra); Sílvio Essinger (Dado Villa-Lobos, Jorge Davidson, Maurício Branco)


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Secos e Molhados: a banda genial que só durou um verão

Por Ademir Luiz

Muito tempo antes de Didi Mocó fazer sua célebre imitação do genial homem com H Ney Matogrosso, existiu uma banda que revolucionou a música brasileira. Na verdade, a banda ainda existe; discretamente, mas existe. No início da década de 1970, o Secos & Molhados, com seu nome de placa de empório de cidade pequena, conseguiu a façanha de passar de um conjunto udigrude performático experimental da noite paulistana para um imenso sucesso popular.
Em janeiro de 2017 completou 45 anos os ensaios iniciais da primeira formação que importa dessa lendária banda, composta pelo lobisomem Ney Matogrosso, o lusitano “dono da bola” João Ricardo e o meteórico fenômeno Gerson Conrad.
Até onde me lembro, o primeiro contato que tive com o grupo foi em algum momento da segunda metade da década de oitenta, em um livro didático de Língua Portuguesa, onde o autor usou “Rosa de Hiroshima”, indicando na legenda que se tratava de uma música do Secos & Molhados com letra de Vinicius de Moraes, e não um poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad. Certamente o autor era fã da banda, fãs fazem essas coisas.
“Rosa de Hiroshima” é a nona faixa do disco de estreia da banda, intitulado simplesmente “Secos & Molhados”, lançado em 1973. A revista “Rolling Stone Brasil” colocou esse trabalho na quinta posição em sua lista dos cem maiores discos da história da música brasileira. Todos conhecem esse disco: é aquele com quatro cabeças servidas em bandejas na capa. Quatro? Mas o Secos & Molhados não é um trio? Sim e não. A primeiríssima formação, que ficou conhecida na noite paulistana por seus inusitados shows no Kurtisso Negro, no Bairro do Bixiga, era composta por João Ricardo, Fred e Pitoco e durou entre 1970 e 1971. Fred e Pitoco saíram em julho de 1971 e João Ricardo, criador do nome e do conceito da banda, precisou remontá-la. Primeiro encontrou o magnífico vocalista Ney Matogrosso, dono de uma das melhores vozes da MPB, e meses depois recrutou seu vizinho Gerson Conrad. O trio, refeito e turbinado, ganhou fama ao se apresentar no bar-café Casa de Badalação e Tédio, anexo do Teatro Ruth Escobar. O próximo passo era gravar um disco.

Para isso incorporaram uma quarta cabeça, a do baterista argentino Marcelo Frias, que havia participado da banda Beat Boys (sim, “beat” e não “beach” como aparece em muitos sites por aí), que acompanhou Caetano “muito lindo” Veloso na famosa apresentação de “Alegria, Alegria” no Festival da Record de 1967. Portanto, embora baterista, Marcelo Frias participou da Revolução da Guitarra que fez com que gente barra-pesada como Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo e Gilberto Gil passasse inesgotável vergonha na infame Marcha Contra a Guitarra Elétrica (pelo menos dessa vez o Chico não foi). Apesar do trabalho impecável, Marcelo Frias deixou o grupo logo depois da sessão de fotos para a capa do disco. Não se sabe exatamente o motivo, mas sua cabeça rolou e o trio que se tornara quarteto voltou a ser trio. Um é João Ricardo, dois é pouco, três é ótimo e quatro ficou demais, mas não durou.
Segundo o pesquisador de música popular André Domingues, autor do livro “Os 100 Melhores CDs da MPB”, “Secos & Molhados combinava as influências do rock — principalmente do rock inglês dos anos 60 — e, em menor parte, do blues, com a atitude libertária propagada pelo tropicalismo, refletida na poética e no visual exuberante do grupo, que se apresentava com coreografias sensuais, roupas extravagantes e os rostos pintados”.
Rostos pintados? Sim, rostos pintados! A velha polêmica dos rostos pintados. De novo. Hoje em dia, tempos bárbaros nos quais medimos a importância de um tema pela quantidade de memes que gera, sempre que se fala em Secos & Molhados as duas primeiras coisas que vêm à cabeça é o “Vira” (influência para o “Vira, Vira” dos imortais Mamonas Assassinas? Assunto para outro texto.) e o Kiss. O caso é que os fãs mais ardorosos do trio (incluindo talvez o autor do livro didático de Língua Portuguesa com o qual estudei no ensino fundamental) defendem a tese de que a pintura no rosto utilizada pela banda americana Kiss é uma imitação do Secos & Molhados. O principal argumento que utilizam é a turnê internacional que estes realizaram em 1974.
Não creio. Primeiramente porque o Kiss foi criado, em Nova Iorque, em 1973. Claro que podem justificar que teriam incorporado a pintura depois, mas o fato é que há registros dos integrantes do Kiss devidamente maquiados antes de 1974, inclusive no célebre show que fizeram no Queens em dezembro de 1973. Beijinho no ombro para vocês, brazucas. Resta o último e implausível argumento de que Gene Simmons teria sido informado acerca do impactante estilo de um estranho grupo que lotava ginásios no Brasil e veio verificar, encantou-se e replicou a ideia. Muita teoria da conspiração para o meu gosto.
Em minha opinião, não houve influência ou imitação. Trata-se de uma questão de zeitgeist, o “espírito do tempo”. Na época, diversos artistas incorporavam elementos do teatro — não apenas maquiagem, mas também luzes, fumaça e pirotecnia — na música. Nem o Kiss nem o Secos & Molhados foram os únicos ou primeiros.
Ademais, a questão da pintura é secundária. São bandas muito diferentes, para públicos diferentes. Acho que o Kiss faz um rockão farofa da melhor qualidade, mas sua proposta estética está longe de ser superior à graça performática sofisticada do Secos & Molhados. Gene Simmons, embora seja um ótimo vocalista, só supera nosso querido Ney Matogrosso na fortuna, no cartel de donzelas defloradas e na extensão lingual (o mesmo vale para Mick Jagger, pelo menos no último quesito).

Após o segundo disco, os ginásios lotados e a turnê internacional, os membros do Secos & Molhados se separaram, ainda em 1974. João Ricardo, após duras disputas judiciais, garantiu sua condição de dono da marca e lançou o terceiro álbum em 1978, à frente de uma nova formação composta ainda por Lili Rodrigues, Wander Taffo, Gel Fernandes e João Ascensão. Nem três, nem quatro, mas cinco membros. Fizeram sucesso com a música “Que fim levaram todas as flores?”, mas esse retorno não teve vida longa. Só a numerologia explica. Um é João Ricardo, dois é pouco, três poderia dar certo, quatro é demais, cinco é um exagero.
O quarto disco, lançado em 1980, fracassou, apesar do Secos & Molhados ter novamente três membros oficiais, fora os músicos de apoio: o incansável João Ricardo e os irmãos César e Roberto Lampé. Mais um disco pouco executado viria em 1987, com a ajuda de Totô Braxil, e ainda outro em 1988, intitulado “A Volta do Gato Preto”. Mas o gato preto não voltou e se passaria uma década até o próximo álbum, que veio em 1999, quando João Ricardo se tornou uma banda de um homem só e lançou “Teatro?”, um disco solo sob o rótulo de Secos & Molhados. Só voltou em 2011, em parceria com Daniel Lesbeck, com o lançamento de “Chato-boy”, oitavo e, até o momento, derradeiro trabalho da banda.
Mas se sabemos o que o Chato-boy, digo João Ricardo, andou fazendo com o nome Secos & Molhados, que fim levaram todas as flores?
Com relação a Ney Matogrosso nem é preciso perguntar. Tornou-se um mito, colecionou sucessos como intérprete, dirigiu o megashow do RPM, deu respeitabilidade ao Barão Vermelho quando gravou “Pro dia nascer feliz”, foi mestre e amante do Cazuza, recusou-se a ser mais um artista de aluguel do governo, tornou-se um crítico ácido da gestão PT e, o mais importante, continuou magro e divo. Aplausos de pé!
Gerson Conrad ainda se apresenta como músico no projeto Gerson Conrad & Trupi, e em 2013 lançou o livro de memórias “Meteórico Fenômeno”, onde narra os poucos e intensos anos em que esteve no Secos & Molhados. Uma curiosidade é o fato de que no livro não há fotos de João Ricardo, que não autorizou o uso de sua imagem. Ah, chato-boy!!
Só para constar: o baterista Marcelo Frias participou de gravações com o rei Roberto Carlos, o príncipe Ronnie Von e Gal “meu nome é Gal” Costa, ou seja, continua sendo o rapaz que anda com os músicos.
Seja como for, entre mortos e feridos, entre secos e molhados, salvaram-se todos. As flores não murcharam e “Rosa de Hiroshima” é eterna.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Capital Inicial - Os Sobreviventes

A banda formado por Dinho Ouro Preto, Fê e Flávio Lemos e Yves Passarell, é a capa na revista Rolling Stone de fevereiro. Leia um trecho da matéria a seguir:



















O Capital Inicial pode provocar reações e amor e ódio no público, mas uma coisa é inegável: entre mais altos do que baixos em um mercado hostil, o quarteto de Brasília jamais deixou de militar em favor do rock nacional

por JOSÉ FLÁVIO JÚNIOR
Dois mil e dezessete não é um ano qualquer para o Capital Inicial. Além de marcar o 35º aniversário do nascimento do grupo – já que os irmãos Fê (baterista) e Flávio Lemos (baixista) começaram a ensaiar com o guitarrista Loro Jones e a cantora Heloísa em 1982 –, o ano tem um gosto especial para Yves Passarell. Egresso da banda de heavy metal Viper, o atual titular das seis cordas do Capital substituiu Loro no final da turnê do Acústico MTV, há exatos 15 anos. E para Yves, esse número, mais do que uma festa de debutante, enseja um questionamento: teria a formação vigente virado a formação clássica do grupo?
A trajetória acidentada e peculiar do Capital permite uma resposta positiva. Falamos da única banda do rock brasileiro surgida nos anos 1980 que conseguiu mais êxito no século 21 do que nos seus primórdios. Que obteve esse sucesso sem se ancorar majoritariamente em canções do passado, muito pelo contrário... Que soube se utilizar dos primeiros erros para construir um presente sólido, mesmo enfrentando um cenário cada vez mais árido para o rock. Voltando à frieza dos números, Dinho Ouro Preto entrou para a banda em 1983, saiu em 1993, tentou outros projetos e retornou em 1998 para o que hoje tratamos como a segunda e mais bem-sucedida fase do Capital Inicial. Loro saiu de vez em 2002. O que significa que essa dupla esteve na linha de frente do conjunto por apenas 14 anos. Em 2017, a dobradinha Dinho e Yves passa a ter mais tempo de estrada que o combo Dinho e Loro.
SUCESSO SUSTENTADO 
Dinho comandando a multidão na segunda edição do Rock in Rio, em 1991, no Maracanã

De todos os integrantes, o único que já havia feito essa conta antes dos encontros para as entrevistas desta matéria era Dinho. O vocalista de 52 anos talvez seja o maior fã do que o Capital se tornou em seu segundo momento. E não apenas pelo aspecto comercial – desde a explosão do 
Acústico MTV (2000), a banda foi para o topo do mercado roqueiro e passou a cobrar os maiores cachês entre seus pares e a exibir a agenda mais cheia, realizando até 120 shows em anos bons e se aproximando de 90 em anos ruins, como em 2016. O vocalista tem muito nítido em sua mente o que era capaz de produzir nos primórdios e o quanto foi capaz de evoluir no processo. “Quando ouço nossos primeiros discos, percebo minhas limitações bastante claras. Noto que não sabia cantar, que não era o meu tom. Só que, como eu não sabia tocar, eu sequer sabia diagnosticar o que estava errado. Queria imitar o Renato [Russo] nas letras, e ficava horrível”, explica. “Quando a gente voltou, em 1998, eu já entendia o que conseguia escrever ou não. Fiquei mais seguro de mim. Essa é a grande diferença.”
Yves em show com o Viper, antes de entrar para o Capital









Dois anos mais velho do que o vocalista, Fê Lemos é o grande defensor da primeira fase do Capital. Ele lembra que todos os integrantes participavam do processo de composição, tornando o trabalho mais plural. “As músicas vinham de vários lados. Não eram trabalhos tão coesos, tão focados. Mas eu gostava desse risco”, defende, mesmo reconhecendo o papel fundamental de Dinho ao tomar para si a condição de principal compositor a partir do retorno do grupo. “Se eu fosse o cantor, teria feito a mesma coisa que ele”, completa. Flávio Lemos vai mais longe: “No começo, muitas vezes a gente ficava lá martelando e não saía nada. Ainda bem que o Dinho agora compõe quase tudo. Do contrário, a gente não teria feito esses discos todos. No tempo em que faço uma música, o Dinho faz 12.”
Dinho, aos 18 anos, ao lado de Ines Laurent, ex-mulher de Fê Lemos












Além de tomar as rédeas da criação, geralmente escrevendo com outros parceiros, sendo Alvin L. o mais constante, Dinho impôs outro padrão ao Capital 2.0: alta produtividade. “Percebi essa volta como uma oportunidade que nos estava sendo dada. E aí a gente fez discos compulsivamente, um atrás do outro. E não quero parar. É a única coisa que encontro para explicar por que o Capital está de pé, por que o Capital toca para tanta gente, por que consegue estar com o pescoço acima da água num momento tão difícil para o rock brasileiro, em que a gente olha para as outras bandas e vê todo mundo enfrentando obstáculos reais”, analisa. Entre 1998 e 2015, o Capital lançou seis álbuns e um EP de inéditas, dois acústicos, um ao vivo e um projeto especial com músicas do Aborto Elétrico, a seminal banda que Fê e depois Flávio dividiram com Renato Russo. O plano para 2017 é seguir fazendo os shows do último lançamento, o Acústico NYC (2015), e talvez soltar um single do próximo disco de inéditas.
Primeira foto de divulgação com Dinho, em 1983









“Às vezes, a impressão que eu tenho é que todo mundo fica olhando em volta para a crise”, segue Dinho. “Porque a tempestade perfeita aconteceu: a crise econômica, política e uma enxurrada de sertanejo e funk. Que, na verdade, levou a todos. Levou hip-hop, reggae, MPB, até o axé. Não foi só o rock. No entanto, acho que não cabe ficar nos queixando. Isso pode soar muito perto de inveja. Não me importa esse ruído. Eu tenho respeito pelos artistas desses gêneros. O rock brasileiro deve se concentrar no rock brasileiro. E eu coloquei como meta no Capital produzir, produzir como se nada houvesse, sempre olhando para a frente. Mal ou bem, funciona. Quem gosta de rock brasileiro nos vê como um sopro de ar fresco no meio dessa tempestade. Tipo, ainda bem que há alguém produzindo.”
Show do Capital em São Paulo, em 1985








A mensagem está sendo acolhida. Thadeu Meneghini, guitarrista e vocalista do Vespas Mandarinas, grupo paulistano da safra mais recente do rock que está entre as favoritos de Dinho, define assim o líder do Capital: “Ele é um cara muito especial e, neste momento particular do rock no Brasil, tem tido um papel fundamental. Dinho é como se fosse o que sobrou daquele rock que ainda se segura no mainstream. Só está precisando chutar mais o pau da barraca”, provoca, com a intimidade de quem já abriu shows do Capital e dividiu o microfone com o próprio Dinho. Se bem que a moral do grupo não está restrita ao universo roqueiro. Uma rápida busca no YouTube traz versões de “Natasha” sendo cantada por Luan Santana e de “À Sua Maneira” (originalmente, uma música da banda argentina Soda Stereo) nas vozes de duplas como Rionegro & Solimões, Jorge & Mateus e Matheus & Kauan.
Dinho com o projeto Vertigo, em 1993









Dinho tem uma boa história que envolve o mundo sertanejo. No Prêmio Multishow de 2014, uma divulgadora de gravadora entrou no camarim reservado a ele e a outros roqueiros que homenageariam os Mamonas Assassinas perguntando se Lucas Lucco e Gusttavo Lima poderiam conhecê-lo. “Eles entraram tão emocionados que, num primeiro momento, até estranhei. Mas aí o menos tatuado deles [Lima] disse que o primeiro show que viu na vida, lá na cidade dele, no interior de Minas Gerais, foi do Acústico do Capital. Ali, ele tinha começado a se apaixonar por música. Mostrou uma gratidão que até me surpreendeu”, recorda. O vocalista revela admiração por essa geração que consegue transitar por estilos diferentes, algo que não era permitido para as tribos de sua época. “Quando comecei a me interessar por rock, eu ouvia Led Zeppelin, AC/DC, Black Sabbath, e era muito sectário. Fui mudando de estilo, mas segui sectário. Comecei a ouvir punk rock aos 16 anos e também fiquei me relacionando apenas com pessoas que só ouviam aquilo. Julgava as pessoas pelo som que escutavam. Muito mais tarde, talvez no fim dos meus 20 anos, foi que percebi que isso não determinava o caráter da pessoa, que o roqueiro podia ser um escroto e o pagodeiro podia ser um grande sujeito.”

TRAJETÓRIA SINGULAR 
Yves Passarell, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto e Fê Lemos: a atual formação do Capital é, de longe, a de maior sucesso da banda