segunda-feira, 8 de maio de 2017

Os Últimos Anos do Charlie Brown Jr., em Fotos



Nova foto-biografia do grupo de Santos apresenta retratos íntimas, mas também traz à tona as tretas nos bastidores que pairam até hoje sobre a banda


por Marcos Candido

Um dos últimos projetos de Alexandre Magno "Chorão", líder do Charlie Brown Jr., foi um livro de fotografia com imagens de dentro do estúdio, alguns momentos introspectivos à beira-mar e turnês realizadas entre 2005 e 2012. Pensado em 2011, o livro Eu Estava Lá Também (Editora Realejo) foi lançado só agora, no dia 9 de abril, quatro anos após a morte do vocalista. As 350 fotos publicadas são como uma homenagem dos fãs à banda, embora escondam os conflitos trágicos e troca de acusações nos bastidores que até hoje pairam sobre o legado do grupo.
Ao abrir o gigante volume (30x30 centímetros), é possível notar algumas dessas desavenças com a ausência de figuras importantes, como da esposa de Graziela Gonçalves, esposa de Chorão por cerca de duas décadas (eles estavam separados há três meses antes da morte do músico).
Outra lacuna é a do nome do fotógrafo Jerri Rossato Lima, que divide a autoria das imagens com Alexandre Abrão, filho de Chorão. Segundo Jerri, o livro impresso "não é o mesmo criado" pelo músico de Santos. O fotógrafo acusa os editores e os herdeiros de excluí-lo da seleção final, alterar o projeto gráfico e retirar Graziela. "As fotos  da companheira de Chorão por cerca de 20 anos, Graziela Gonçalves, que faziam parte do projeto original, foram excluídas do livro. A pessoa que inspirou diversas músicas escritas por Chorão [como o hit Proibida Pra Mim] foi excluída da sua própria história", diz Jerri. No projeto apresentado por Jerri à reportagem, a ex-esposa aparece ao lado do músico e há grafismos diferentes dos que foram lançados agora.
O editor José Luiz Tahan defende que as imagens escolhidas estavam sobre a mesa da casa onde Chorão foi encontrado morto."Acredito que naquele momento ele desejou excluí-la [Graziela Gonçalves] do projeto", diz o editor. "Nós respeitamos essa decisão, até porque as esposas dos outros músicos também não foram incluídas no livro". Já para Alexandre, o formato de Jerri precisava de alterações que atendessem o "grau de exigência" esperado pelo pai. Ao não conter imagens na companhia da ex-esposa no último rascunho do livro deixado por Chorão, o filho argumenta que o pai é quem tomou a decisão de não incluí-la.
Segundo o editor Tahan, desde 2012 a produção do livro havia sido interrompida "quase semanalmente" pelo próprio Chorão. "A cada ano o Chorão falava em finalizar o livro, que sofria diversas alterações", argumenta. Um dos motivos, ele explica, foi a volta de antigos membros à banda, como o guitarrista Marcão e o baixista Champignon.

Como se sabe hoje, o retorno dos originais foi turbulento. Em 2012, durante um show no Paraná, Chorão acusou o colega de retornar à banda por motivos financeiros e o baixista abandonou o palco. Meses depois, ambos apareceram em um vídeo constrangido de desculpas, publicado via YouTube. Meses de estrada se passaram quando, no dia 6 de março de 2013, Chorão foi encontrado morto no apartamento onde morava em São Paulo. Tentando dar continuidade aos projetos musicais enquanto enfrentava um divórcio e o luto, Champignon se matou em setembro do mesmo ano.
A responsabilidade pelo livro coube, então, aos herdeiros e aos profissionais escalados no início da produção, que decidiram continuar com a produção. Depois das disputas para decidir o rumo da obra, Jerri Rossato decidiu por retirar seu nome do livro - Eu Estava Lá Também é assinada apenas com "uma obra de Chorão" na capa. 
Mesmo com o fim ruidoso da banda acostumada a mensagens positivas, vida e obra do Charlie Brown Jr. seguem como referência para uma comunidade de seguidores por todo o país: Eu Estava Lá Também contou com o apoio dos fãs, que por meio de um crowdfunding ajudaram a financiar o livro com fotos que miram as lentes para o bom astral habitual do palco. Há imagens de Chorão abraçado com Pelé, viajando alegre ao lado dos colegas e do skate, esporte que foi uma de suas várias marcas.

Virada Cultural 2017

CENTRO
VALE DO ANHANGABAÚ – MUSICAIS
21           0h          Beatles num Céu de Diamantes
21           13h        60! Década de Arromba
21           16h        Alegria, Alegria
TABLADOS
COPAN – CABARÉ QUEER            
Av. Ipiranga
20           22h        Edy Star
21           07h        Marcelo Veronez – Não Sou Nenhum Roberto
André Frateschi e Banda Heroes













BOULEVARD SÃO JOÃO – TRIBUTOS
20           18h        Curumin canta Stevie Wonder
21           00h        Um Baile por Tim Maia Racional
21           03h        BluBell canta Madonna
21           06h        André Frateschi e Banda Heroes (Tributo David Bowie)
21           09h        Filipe Catto canta Cassia Eller
21           12h        RITCHIE & BLACKTIE – OLD FRIENDS – the songs of PAUL SIMON
21           15h        Roberta canta Roberto
21           17h        Dê um Rolê – Homenagem aos Novos Baianos
 The Baggios















7 DE ABRIL – ROCK          
20           18h        Finger Fingerrr
20           20h        The Baggios
20           22h        Maglore
21           00h        Vermes do Limbo+Bernardo Pacheco
21           02h        Pin Ups
21           04h        Garage Fuzz
21           06h        Dominatrix
21           08h        Ian Ramil
21           10h        Sara Não tem nome
21           12h        Luiza Lian – Oya Tempo
21           14h        Baleia
AROUCHE – JAZZ            
20           18h        Orleans Street Band
20           19h        DJ Leo Lucas
20           20h        Vruumm
20           22h        Nomade Orquestra
21           0h           Hammond Grooves
21           1h30      DJ Elohim
21           2h30      Sollana AllStars
21           4h           DJ Dubstrong
21           5h           Mental Abstrato
21           7h           Amoradia do Som e Dharma Samu
21           9h           DJ Tahira
21           10h        Carlos Malta
21           12h        Projeto Coisa Fina
21           14h        DJ Nuts
21           15h15    Julio Bittencourt Trio e Leo Gandelman
21           16h30    Tributo ao Weather Report
CINEMA AO AR LIVRE
RUA DO TESOURO x RUA DIREITA – REFUGIADOS
20           18h        Projeção do Making Off do premiado filme “Era o Hotel Cambrigde”, bate-papo com a Cineasta Eliane Caffé e atores do filme, entre eles refugiado e imigrantes
E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante






PRAÇA DOM JOSÉ GASPAR – INSTRUMENTAL  
20           18h        Vitor Araujo
20           20h        Quartabê
20           22h        Strobo
21           00h        The Gasolines
21           02h        Félix Robatto
21           04h        E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante
21           06h        Meneio
21           08h        M. Takara
21           10h        Quarteto Roda de Choro
21           12h        Amilton Godoy e Léa Freire – Homenagem aos compositores Brasileiros
21           14h        Guizado
21           16h        Dudu Lima Trio
21           18h        Guilherme Kastrup
PRAÇA DA REPUBLICA X PEDRO AMERICO – KOMBRODOMO    
20                           Komboio Cultural (AFROLATINA/JAZZ)
20                           Folk na Kombi
21                           Jazz na Kombi
DOM JOSÉ GASPAR  – PIANO NA PRAÇA             
21           01h        Eduardo Dusek
21           03h        Simoninha
21           05h        Fernanda Porto
AV. SÃO LUIS – BIG BANDS
20           18h        Big da Santa
20           20h30    Big Band Senior
20           23h        Banda Jazzco
21           1h30      Banda Urbana
21           4h30      Orquestra Arruda Brasil
21           7h          JuruFrevo Big Band
21           9h30      Ensemble Brasileiro
21           12h        Mario Campos Consenso Big Band
21           14h30    SP Jazz Big Band
21           17h00    Freedom Big Band
LOVE STORY – INTERVENÇÕES  
20           20H        Na Selva da Cidade
Video Mapping (projeções) – Theatro Municipal
20           21           O tempo não pára
20           23h        São Paulo, meu amor
PRAÇA DAS ARTES         
20           19h        Pink Floyd cover: Mágico do Oz + Pink Floyd
20           22h        Mr. Kurk: Fantasia + Clássicos do Rock
21           00h        Trupe Chá de Boldo + A Fantástica Fábrica de Chocolate
21           3h          Radiohead Cover: Nosferatu + Radiohead
CENTRO CULTURAL OLIDO
Sala Paissandu
21           03h        Pelico
21           06h        Isso Não É Um Sacrifício – Christiane Tricerri

Titãs





VIRADA DESCENTRALIZADA
PARQUE ANHEMBI – Sambódromo
PALCO ANHEMBI           
21           12h        Titãs
CHÁCARA DO JOCKEY  
PALCO 1
21           18h        Nando Reis
PISTA DE SKATE              
20           18h        Dubversão Sistema de Som
20           19h        tela bruta
20           22h        FEMININE HI FI
21           2h           Lei Di Dai – Gueto pro Gueto – Sistema de Som
Centro Cultural da Juventude  
20           18h        Lixomania
20           20h        Invasores de Cérebro
20           22h        Ratos de Porão
21           10h        Simbad, o Navegante – Circo Mínimo
21           14h        GAGÁ
21           16h        Banda Maverick Soul
21           16h        Não Recomendados
21           18h        Opalas + Nereu Mocotó
Centro Cultural Cidade Tiradentes        
21      00h             Tribo de Jah
Centro Cultural da Penha          
20           18h        Guilherme Arantes
20           20h        Vanusa
20           22h        Tributo a Jerry Adriani: Autoramas + Erika Martins + Astronauta Pinguim
+ China + Kiko Zambiancchi + Lilian + Eduardo Araujo
21           14h        A Feira de Chico, Gonzaga e Jackson
21           16h        SARAU DO PEIXE (Coletivo Estopô Balaio de criação, memória e narrativa)
21           18h        Erasmo Carlos
Centro Cultural Tendal da Lapa               
21           0h           Dead Fish
21           14h        Música “PROJETO ROCK NO TENDAL –  DEATH BY STARVATION VAZIO, CREPTUM, SLOV”
Centro Cultural da Vila Formosa            
21           20h        Mustache & Apaches
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
Sala Adoniran Barbosa
20           18h        Juçara Marçal
20           20h        Mariana Aydar
20           22h        Barbara Eugênia
21           01h        Tiê
21           02h        Anelis Assumpção
21           4h           Cidadão Instigado
21           8h           Operilda na Orquestra Amazônica
21           10h        Cocô de Passarinho
21           12h        Mahmundi
21           14h        Curumin
21           16h        Karina Buhr
21           18h        Siba
Biblioteca Viriato Correa           
21           16h        Rauzitos – A Lenda do Maluco Beleza
CASAS DE CULTURA
Casa de Cultura do Butantã
20           17h        Mustache & Apaches
Casa de Cultura do Ipiranga Chico Science
20           19h        Banda 123 & Jah!
Casa de Cultura do Campo Limpo
20           22h        Nanny Soul & Banda
21           11h        Banda 123 & Jah!
21           17h        Picanha de Chernobill
CINESESC
rua augusta, 2075
Retirada de ingressos 1h antes de cada sessão, na bilheteria do Cinesesc.


Trainspotting: Sem Limites. (Dir: Danny Boyle. GBR, 1996, 93’). Em Edimburgo, na Escócia, vive Renton, um jovem usuário de heroína que leva uma vida despreocupada, dividindo-se entre seu romance com a estudante colegial Diane e os encontros com seus quatro amigos viciados. 18 anos. 20/5. Sábado, 18h.


Sid e Nancy. (Dir.: Alex Cox. GBR/EUA, 1987, 100’). Baixista do grupo Sex Pistols, ícone do punk rock inglês do final dos anos 70, Sid Vicious já vivia uma vida problemática e revoltada como bom artista punk. Mas seu comportamento só piorou depois de conhecer a jovem Nancy Spungen. 18 anos. 20/5. Sábado, 20h.


T2 Trainspotting. (Dir.: Danny Boyle. GBR 2017, 117’). Renton retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência. 16 anos. 20/5. Sábado, 22h.

Polyester. (Dir.: John Waters. EUA, 1981, 86’). Fancine é uma mãe de família que luta para salvar seu casamento e seus filhos. Mas ela descobre que seu marido tem um caso com a secretária, que sua filha é ninfomaníaca e, seu filho, um maníaco pedólatra. 18 anos. 21/5. Domingo, 00h. 

The Doors. (Dir.: Oliver Stone. EUA, 1991, 120’). Anos 60. A ascensão de Jim Morrison, vocalista da banda de rock The Doors. 18 anos. 21/5. Domingo, 2h.

Garotos de Programa. (Dir: Gus Van Sant, EUA, 1991, 105’). Mike e Scott são dois jovens garotos de programa que moram nas ruas de Portland, Oregon. Os dois fazem parte de um grupo de libidinosos excluídos sociais, que se juntam num prédio condenado para fazer tumulto e se venderem a quem esteja disposto a pagar por eles. 18 anos. 21/5. Domingo, 14h.

Edukators. (Dir.: Hans Weingartner. ALE, 2004, 127’). Jan e Peter são dois jovens que acreditam que podem mudar o mundo. Eles se autodenominam “Os Educadores”, rebeldes contemporâneos que expressam sua indignação de forma pacífica. 12 anos. 21/5. Domingo, 16h.




quinta-feira, 20 de abril de 2017

Entrevista | Guilherme Arantes | Moto Perpétuo








Antes de começar uma carreira solo repleta de hits emplacados em rádios e novelas, Guilherme Arantes explorou uma veia roqueira como vocalista, tecladista e principal compositor na banda Moto Perpétuo. Ao lado de Egydio Conde (guitarra e vocais), Diógenes Burani (percussão e vocais), Gerson Tatini (contrabaixo e vocais) e Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocais), ele gravou o álbum homônimo da banda, lançado em 1974. A sonoridade pode ser comparada ao som progressivo feito pelo Yes ou pelos Mutantes na época, além de nomes como Clube da Esquina, Secos & Molhados, Genesis, King Crimson, O Terço e outras influências que o próprio Arantes citou, como algumas bandas progressivas italianas.











Agora, o álbum acaba de receber uma reedição em CD, já disponível nas principais lojas do Brasil e com todas as faixas que compunham a obra original, como “Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Matinal”, “Duas” e “Turba”, (você pode ouvir aqui: https://youtu.be/_u0g3UEsJbc.) Para celebrar o relançamento e o momento de redescoberta desta pérola perdida na história do rock brasileiro, Guilherme Arantes, em entrevista, deu detalhes de tudo que aconteceu nesta fase que ele lembra com carinho e define como “a infinita beleza do idealismo”. 




Você e Cláudio se conheceram na faculdade de arquitetura, certo? Como foi a aproximação com Egydio, Diógenes e Gerson? O que moveu vocês a montarem a Moto Perpétuo?


Diógenes foi o primeiro que eu conheci, alguns anos antes, precisamente na peça Plug, na Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar, uma peça produzida pelo meu primo Solano Ribeiro, importante produtor dos Festivais da Record e FIC da Globo. Com Diógenes e com Rodolfo Grani Júnior, eu tocaria com Jorge Mautner no Teatro Ruth Escobar e no Teatro Treze de Maio, em São Paulo. 
Quando entrei na faculdade de Arquitetura da USP, logo me aproximei da turma mais aficionada pela música, e Cláudio Lucci já tocava e lecionava violão clássico, além de estudar cello.
Com as afinidades no progressivo (Yes, Emerson, Lake & Palmer, e as bandas italianas Le Orme, e especialmente Premiata Forneria Marconi) a gente começou a querer montar um grupo. Eu já andava com repertório extenso, muitas influências do Clube da Esquina mineiro, que era “bola da vez” aqui no Brasil. 
Ao apresentar Cláudio para o Diogenes, aconteceu uma química muito poderosa, porque Diógenes sempre foi muito carismático, e assim começamos como um trio de sonhadores.
Logo Diógenes sugeriu o baixista Gerson Tatini, que morava na Aclimação, muito técnico e muito britânico em suas influências, especialmente do Gentle Giant, que era sua paixão maior.
Gerson, por sua vez, nos trouxe a indicação de Egydio Conde, que tinha muita afinidade com o blues, com Eric Clapton e com David Gilmour, então a banda estaria completa.


Quais foram as bandas ou artistas que inspiraram vocês a chegarem na sonoridade do disco lançado em 1974?

Milton Nascimento, Som Imaginário, o movimento Clube da Esquina de Milton, o Gil do “Expresso 2222”, Taiguara do disco “Fotografias”, Walter Franco, e todo o Progressivo mundial (Yes, ELP, King Crimson, Genesis, e muito fortemente as bandas italianas Le Orme e Premiata Forneria Marconi. O Moto Perpétuo era na verdade uma italianada, e ainda fomos ensaiar numa casa no Brás, então éramos chegados a essa italianice.


Como funcionava o processo de criação dos sons que você compôs para o disco? Você já mostrava as músicas com suas estruturas definidas e mais próximas do resultado final, ou a banda ainda tinha uma participação massiva nessa construção?

O grosso do repertório eu já tinha alinhavado sozinho (“Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Conto Contigo”, “Matinal”, “Turba”, “Os Jardins”). Mas uma vez incorporados os demais músicos, houve uma inter-relação criativa muito forte, pois os caras eram muito bons, e muito superiores a tudo que eu já havia participado, então eu comecei a compor mais e mais canções como “Sobe” e “Duas”, que já incorporavam os elementos dos demais. Cláudio, por sua vez, já tinha composto  sozinho “Três e Eu” e “Seguir Viagem”.


Você lembra de quais pianos utilizou nas gravações?

As gravações foram no estúdio da Sonima, na Av. Rio Branco, Barra Funda, São Paulo, sob a produção de Peninha Smith. Havia um piano de meia-cauda de qualidade regular, possivelmente um Essenfelder (é o que eu me lembro) ou talvez um Gotrian-Steinweg... Usei ainda um Fender Rhodes, uma Echoplex, um Phaser Shifter Maestro, e um órgão Hammond, todos alugados da Transassom.


Como você vê o papel do produtor Moracy do Val no resultado do disco?

Moracy foi fundamental para conseguir nossa aprovação na Continental, com o queridíssimo Byington (presidente) e com o insuportável Rodrigues (gerente de vendas). Sem Moracy, não haveria nosso LP em 1974.
Moracy foi também influenciador com suas ligações literárias, citações de Ezra Pound, Poe... sempre foi um personagem culto, e que vinha embalado pelo sucesso dos Secos & Molhados, que tinha esse viés literário e poético muito forte. Mas Moracy já experimentava o desmonte dos Secos, a briga interna da banda, e isso prejudicou muito o Moto Perpétuo, pois ficamos perdidos com a ausência absoluta de Moracy, que não tinha muito o que fazer por nós. Depois de um único show no Teatro 13 de Maio, nada mais Moracy pode fazer pelo Moto Perpétuo.Considerando que você compôs a maior parte das faixas do álbum, qual você acha que foi a principal diferença entre o processo de criação dessas músicas para o mesmo processo em sua carreira solo,  que começou na sequência?

Falando muito pessoalmente, a principal diferença seria a minha libertação da camisa-de-força que representava a ideologia do que se chamava “rock”. Essa definição era muito importante na época, era como se houvesse um código de honra para se pertencer a um “movimento” e se enquadrar no show-business incipiente que engatinhava nesse setor da música. Enquanto isso, o Brasil dos auditórios, tradicionalmente romântico, seguia com os sucessos de novelas nos programas de televisão. Eu vivia dividido, aliás como todo mundo, entre a realidade nua e crua do dia a dia de um país atrasado, e os sonhos mirabolantes de uma moda (o rock progressivo) que vinha de países tecnológicos com uma cultura totalmente diferente do primeiro mundo.
Esse choque pra mim já havia nascido resolvido: eu sempre preferi a televisão, o povão, o romantismo, então resolvi mergulhar com tudo quando a chance aconteceu. Passei a compor focado na realidade, virando cantor popular. Mas nunca deixei de gostar do progressivo e o Moto Perpétuo sempre foi e sempre será uma banda excelente, um trabalho belíssimo, que fica para ser avaliado pelas novas gerações.


Você considerou a hipótese de reunir a banda com os seus integrantes originais alguma vez depois do disco? 

Não. Nunca gostei da ideia. O Moto Perpétuo foi um grupo muito paradoxal, com muitos conflitos de base. Veja só: o rock progressivo era uma estética aristocrata, devido à erudição musical, um dos seus principais alicerces. O Moto Perpétuo tinha esse viés estético de italianada do Brás, vivíamos em linhas de trens, indo para o ABC – coisa que herdamos do Cláudio Lucci, que passou a ter essa liderança junto com o Diógenes. Eles se tornaram mais líderes do que eu. Só que essa exacerbação da italianada induzia a uma estética operária: uma banda progressiva-operária? Peculiar demais. 
Segundo conflito de base: a androginia era a bola da vez no mundo, questionamentos de sexualidade numa era de Alice Cooper, Lou Reed, T-Rex, Secos e Molhados, Dzi Croquettes... e o Moto Perpétuo era uma banda sem a menor vocação pra esse tipo de componentes na estética. Mais um motivo pra gente não receber destaque nenhum de mídia alguma. Todo mundo era andrógino, menos a gente. Só levávamos pedrada porque éramos altivos e nos achávamos especiais em tudo. Olhando bem hoje, acho que éramos de fato.


O rock progressivo setentista brasileiro de bandas como o Moto, O Terço, Módulo 1000 e Os Mutantes, de tempos em tempos é revisitado e redescoberto por novos amantes da música. Como você acha que o público mais jovem pode reagir a esse trabalho hoje em dia?O progressivo brasileiro é muito bom, assim como o da Itália, da Argentina... é um movimento de muita qualidade mas com um foco muito forte na técnica musical, o que o fez não ter uma compreensão plena da crítica, especialmente a crítica escrita, que sempre tem uma afinidade maior com a literatura, a poesia. De um modo geral, em termos mundiais, o progressivo não era forte em letras e versos porque privilegiava o som, o instrumento, o virtuosismo. Mas mesmo aqui havia exceções, como o grupo A Barca do Sol, que tinha Geraldinho Carneiro para escrever (bem).


Você tem alguma faixa favorita no “Moto Perpétuo”? 

“Turba” e “Três e Eu” são as minhas favoritas. Mas o disco todo é de uma beleza, de uma pureza extraordinárias. Tínhamos 20 anos de idade!


Que lembrança ou sentimento você guarda com mais clareza dessa sua fase musical?

Lembro de muitas angústias, de uma luta constante contra tudo e todos, mas acima de tudo, a infinita beleza do idealismo. Isso está estampado claramente na capa, muito linda em silk screen, de autoria do nosso amigo Marcus Campacci. Isso ficará: a infinita beleza do idealismo. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

O esquecido e genial disco “A sociedade da grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez”




















Em 1971, um quarteto de músicos praticamente anônimos gravou um discaço recheado de humor e transbordante criatividade. A ideia de “A Sociedade de grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez” foi de Raul Seixas, na época produtor da gravadora CBS, que convocou seu conhecido da Bahia, Edy Star, e o capixaba Sérgio Sampaio. Em 1970, Sérgio havia acompanhado o músico Odibar em audição na CBS e ambos tornaram-se parceiros musicais e amigos.
Faltava uma mulher para completar o time e a escolhida foi Miriam Batucada, que era a mais conhecida do quarteto por suas participações em programas televisivos com sua habilidade de batucar com as mãos. Mesmo com várias letras censuradas, o disco saiu e foi distribuído para as rádios e jornais, mas depois de 15 dias foi recolhido pela gravadora CBS sem maiores explicações. O mito de que o disco foi recolhido porque foi gravado clandestinamente e sem conhecimento da gravadora já foi desmentido por Edy Star, único kavernista ainda vivo.

Nossos encontros eram normais. Algumas pessoas pensavam, e até hoje pensam, que éramos um tipo de sociedade secreta por causa do nome [risos]. Tem quem ache que éramos maçons. Era tudo sempre divertido. Não tinha machismo. Raul era um hetero casado, Sérgio era um hetero namorador, mas um cara mais do samba. Eu era essa bicha enlouquecida e solta na vida, e a Miriam era a fanchona do grupo [gíria para lésbica]” , Edy Star relembra as gravações do disco em entrevista ao portal UOL no ano passado.
Edy Star (primeiro à esquerda), Raul Seixas (primeiro à direita), Sérgio Sampaio (acima) e Miriam Batucada (no centro) na época da gravação do álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” (fonte: UOL)







Alguns discos lançados na época como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, e Freak out! (1966), da banda The Mothers of Invention, liderada por Frank Zappa, inspiraram o experimentalismo do quarteto. Se os gringos faziam a cabeça dos quatro, eles também misturaram música brega, jovem guarda, samba, baião e outros ritmos brasileiros.

Raulzito atravessava uma fase de ostracismo e compunha canções para outros artistas, como a cantora Diana e Jerry Adriani. Se a Philips era a casa dos medalhões da MPB, a CBS, onde Raul trabalhava com produtor, lançava discos de “uma linha mais zé povinho, era a fábrica de ilusões”, define Raul no documentário Dossiê Kavernista de Luiz de Magalhães. Sérgio Sampaio não se conformava em conviver com o vulcão criativo Raul Seixas meio adormecido e o incentivava à retomada de sua carreira de cantor e compositor.
No disco, os dois baianos, um capixaba e uma paulista ironizam o nascente showbiz brasuca em seu principal centro, o Rio de Janeiro. Na faixa “Quero ir”, os músicos estão preparados para abandonar o Rio após o “fracasso”: “eu vou pra Bahia ou volto pra Cachoeiro de Itapemirim”, ou seja, Edy Star e Raulzito voltariam ao seu estado natal e o capixaba Sérgio Sampaio a Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal de Sérgio e do rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos.
Os dois baianos do quarteto, Edy e Raul, se conheciam há tempos, ainda adolescentes, os papos giravam em torno de rock e James Dean quando Raul era o presidente do Elvis Rock Club. Mais tarde, ambos se trombavam em suas andanças pelas rádios da capital baiana.
Depois do (semi) lançamento do disco, Raul permaneceu por pouco tempo em seu cargo na gravadora CBS e se desligou em 1972. O álbum ganhou diversas reedições ao longo dos anos, sendo a última em 2010 pela Sony Music.
No documentário Dossiê Kavernista, Edy Star relembra que um dos diretores da CBS passou um ríspido sermão sobre os possíveis motivos do fracasso do disco, “não fizemos nada, saímos de lá, fomos queimar um fumo e dar risada”.