sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Resenha: “Recomeçar”, Tim Bernardes

Por: Cleber Facchi


“Eu quis mudar / E isso implicava em deixar para trás / Meu chão, meu conforto, o certo, a paz / Eu fui a procura de mais". Ainda que existam diferentes formas de interpretar e encaixar a poesia libertadora de Quis Mudar, terceira faixa do primeiro álbum em carreira solo de Tim Bernardes, Recomeçar (2017, Risco), não há como negar que sobrevive ali um perfeito resumo do novo posicionamento do cantor e compositor paulistano. Uma ruptura sutil, como um breve distanciamento do material que vem sendo explorado pelo artista na curta discografia d’O Terno, projeto em que atua como guitarrista/vocalista desde o início da presente década. Para além de possíveis burburinhos, o trabalho como integrante da banda paulistana segue sem interrupções, ainda embalado pelo maduro acabamento do recente Melhor Do Que Parece (2016), terceiro registro de inéditas do grupo. Trata-se de apenas de uma curva leve na carreira de Bernardes, como um convite a explorar as angústias e conflitos particulares do cantor, dificilmente externadas em um projeto coletivo. Versos dotados de uma poesia grandiosa, mesmo na delicada tapeçaria instrumental que amarra cada composição. Dotado de um lirismo agridoce, Recomeçar joga com a dor e o acolhimento dos versos a todo instante, costurando tormentos intimistas, declarações de amor e conflitos que bagunçam a mente de Bernardes.

Uma obra de essência particular, como um abrigo poético, mas que se conecta diretamente ao ouvinte logo em uma primeira audição. Entre arranjos orquestrais, sempre precisos, a passagem direta para um mundo de sentimentos confessos, postura reforçada logo na inaugural Talvez (“Eu não quis ouvir / Fui me fechar / Pra tudo que eu / Não conheço“), mas que cresce à medida que avançamos pelo registro. Próximo e ao mesmo tempo distante do material que vem produzido como integrante d’O Terno, Recomeçar trata da melancolia de Bernardes (e do próprio ouvinte) com uma honestidade rara. Difícil não desmoronar ao bater de frente com faixas como Não (“Eu acredito que não foi por mal / Mas que fez muito mal pra mim / Fez mesmo“) e, principalmente, a sorumbática Ela (“Quase como que anestesiada / Vai deixando a vida carregar / Ela sentiu mais do que aguentava / Não quer sentir nada nunca mais“). Composições sempre econômicas na construção dos versos, porém, ricas em significado. Mesmo quando foge da temática sentimental e observa o próprio entorno, Bernardes mantém firme o conceito melancólico do registro. Exemplo disso está na sóbria Tanto Faz, quarta faixa do álbum. Entre ambientações acústicas, a voz do músico explode: “Tanto faz / Quem saiu, quem entrou / Tanto faz / De que lado ficou / Tanto faz / Eu vou sempre perder“. Versos que passeiam pelo atual cenário político brasileiro de forma descrente, como uma extensão do tom pessimista que marca os instantes finais do último registro de inéditas d’O Terno. Nada que se compare ao cuidado do artista em As Histórias do Cinema. Uma composição marcada pela descrição dos versos e delicado jogo entre a realidade dos filmes e os personagens interpretados diariamente pelas pessoas (“E a vida parece mentira / Por que não quer acreditar / Que as histórias do cinema / É que não podem ser reais“). Curioso notar como toda essa seleção de versos talvez passasse despercebida se não fosse pelo elaborado arranjos de cordas que cobre toda a superfície do registro. São quase cinco décadas de referências organizadas em um mesmo ambiente instrumental, como se a obra Scott Walker, The Beach Boys e Roy Orbinson encontrasse com o trabalho de nomes recentes do folk norte-americano, caso de Fleet Foxes e Sufjan Stevens. Prova disso está na autointitulada faixa de encerramento do disco, composição capaz de jogar com o uso de pequenos respiros e atos orquestrais que antecedem a explosão dos versos, trazendo flexibilidade das palavras um misto de fechamento e regresso ao início da obra (“O que começa terá seu final / E isso é normal … A dor do fim vem pra purificar / Recomeçar“). Personagem central da própria obra, Bernardes não apenas assume a composição dos versos, traduzindo as próprias experiências e sentimentos de forma sempre expositiva, honesta, como detalha cada fragmento instrumental, arranjo de cordas, sopros e vozes que ocupam as brechas do registro. Um exercício particular, porém, completo pela breve interferência de nomes como Gui Jesus Toledo, responsável pela gravação do álbum, e todo o time de músicos que cercam o paulistano do primeiro ao último instante da obra, fazendo de Recomeçar um imenso e precioso labirinto de sensações. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ruído em Progresso: Rakta + As Mercenárias


As Mercenárias, lideradas por Sandra Coutinho, recebem a Rakta no palco para um encontro inédito que reúne duas gerações do punk feminino.

por Bruna Bittencourt
Separadas por um intervalo de 30 anos, duas gerações do punk feminino se encontram no palco do Centro Cultural São Paulo. De um lado, estão As Mercenárias, velhas conhecidas do público paulistano. Liderada por Sandra Coutinho, a banda surgiu nos anos 80 e foi um dos primeiros grupos punk formados por mulheres (ainda que Edgard Scandurra tenha sido o baterista na primeira formação). Do outro, o trio Rakta, uma das melhores novidades da cena roqueira independente nacional. "Cada integrante da banda conheceu As Mercenárias em épocas diferentes", conta Paula Rebellato, voz e teclados do grupo fundado em 2011.
Sandra é hoje a única remanescente da formação original das Mercenárias. Em 1990, depois de dois discos lançados (Cadê as Armas?, 1986, e Trashland, 1988), a banda foi dispensada pela gravadora via telegrama. Com o fim do grupo, a baixista trocou o Brasil pela Alemanha, decisão motivada também por um relacionamento e uma inclinação à música experimental e de improvisação. "Não tinha perspectiva para esse tipo de som aqui. Com as Mercenárias, já era difícil".

Foram 14 anos fora do país e quando voltou, em 2004, Sandra ficou surpresa ao tomar conhecimento do público que sua banda ainda tinha, descoberta feita em uma apresentação d'As Mercenárias no Sesc Pompeia, em São Paulo. "Sabe um dragão adormecido? Fiquei espantada: estava muito cheio e havia muita gente cantando." Em 2005, o lançamento da coletânea da banda (Brazilian post-punk 1982-1988 - O começo do fim do mundo) deu mais um impulso ao grupo e, desde então, As Mercenárias têm tocado com frequência, ainda que em diferentes formações.

Já a Rakta lançou, pelo selo americano Iron Lung, seu segundo álbum, III - o nome é uma referência à estreia da banda como trio. A saída da guitarrista Laura Del Vecchio, após o primeiro disco da banda, levou Paula, a baixista Carla Boregas e a baterista Nathalia Viccari a reformularem o som da Rakta. "A gente passou a explorar ainda mais camadas de atmosfera para preencher o som. É legal você estar em um festival de rock e falar:  'Nosso grupo não tem guitarra'. É uma formação interessante. A gente não sente falta hoje em dia", conta Paula. "Atmosférico", "ritualístico" e "bruxesco" são adjetivos usados para descrever o som do trio, que tem um trânsito crescente fora do Brasil.
Em 2014, fizeram uma turnê de três meses pela Europa. No ano passado, excursionaram por Japão, Canadá e Estados Unidos. Neste ano, já passaram por México, Colômbia, novamente Estados Unidos (Texas) e vão ao Peru. Por aqui, ingressaram no circuito de festivais e desde o início do ano tocaram no Bananada (Goiânia) e no Coquetel Molotov (Recife).
Matriarcado
O feminismo é inerente ao Rakta, por ser um grupo punk formado apenas por mulheres. "Estarmos em festivais, lançando discos, viajando, ocupando esses lugares, dispensam uma manifestação verbal [sobre feminismo]. A ação é um ato político por si só", afirma Paula. "Todas nós vivenciamos ele à nossa maneira e conseguimos transcrever isso com a banda, com as músicas. Nunca ficamos falando que somos feministas em show. É muito o que a gente é e faz", explica a tecladista.
A percepção sobre o assunto é similar ao que pensa Sandra. "Não sou militante. Sou fruto do matriarcado. Minha avó ficou viúva e se virou para criar os filhos. Minha mãe sempre foi muito independente, comprou um carro com 18 anos, era professora primária e queria usar calça porque achava mais prático. Ela simplesmente fez, realizou", conta. "Ana e Rosália [integrantes da banda nos anos 80] tinham filhos sem maridos, se viravam, mas isso nunca foi o tema de uma letra. Na época, havia outras questões acima, como direitos humanos e democracia, estávamos saindo de uma ditadura", lembra a baixista d'As Mercenárias.
No show, Rakta e Mercenárias tocam músicas de cada banda e mostram duas novas, criadas a várias mãos. "O resto são transições das nossas faixas para as delas, algumas interações entre elas", conta Paula. "Elas contribuem em nossas músicas e vice-versa", diz Sandra. Literalmente, um encontro de gerações.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Os Últimos Anos do Charlie Brown Jr., em Fotos



Nova foto-biografia do grupo de Santos apresenta retratos íntimas, mas também traz à tona as tretas nos bastidores que pairam até hoje sobre a banda


por Marcos Candido

Um dos últimos projetos de Alexandre Magno "Chorão", líder do Charlie Brown Jr., foi um livro de fotografia com imagens de dentro do estúdio, alguns momentos introspectivos à beira-mar e turnês realizadas entre 2005 e 2012. Pensado em 2011, o livro Eu Estava Lá Também (Editora Realejo) foi lançado só agora, no dia 9 de abril, quatro anos após a morte do vocalista. As 350 fotos publicadas são como uma homenagem dos fãs à banda, embora escondam os conflitos trágicos e troca de acusações nos bastidores que até hoje pairam sobre o legado do grupo.
Ao abrir o gigante volume (30x30 centímetros), é possível notar algumas dessas desavenças com a ausência de figuras importantes, como da esposa de Graziela Gonçalves, esposa de Chorão por cerca de duas décadas (eles estavam separados há três meses antes da morte do músico).
Outra lacuna é a do nome do fotógrafo Jerri Rossato Lima, que divide a autoria das imagens com Alexandre Abrão, filho de Chorão. Segundo Jerri, o livro impresso "não é o mesmo criado" pelo músico de Santos. O fotógrafo acusa os editores e os herdeiros de excluí-lo da seleção final, alterar o projeto gráfico e retirar Graziela. "As fotos  da companheira de Chorão por cerca de 20 anos, Graziela Gonçalves, que faziam parte do projeto original, foram excluídas do livro. A pessoa que inspirou diversas músicas escritas por Chorão [como o hit Proibida Pra Mim] foi excluída da sua própria história", diz Jerri. No projeto apresentado por Jerri à reportagem, a ex-esposa aparece ao lado do músico e há grafismos diferentes dos que foram lançados agora.
O editor José Luiz Tahan defende que as imagens escolhidas estavam sobre a mesa da casa onde Chorão foi encontrado morto."Acredito que naquele momento ele desejou excluí-la [Graziela Gonçalves] do projeto", diz o editor. "Nós respeitamos essa decisão, até porque as esposas dos outros músicos também não foram incluídas no livro". Já para Alexandre, o formato de Jerri precisava de alterações que atendessem o "grau de exigência" esperado pelo pai. Ao não conter imagens na companhia da ex-esposa no último rascunho do livro deixado por Chorão, o filho argumenta que o pai é quem tomou a decisão de não incluí-la.
Segundo o editor Tahan, desde 2012 a produção do livro havia sido interrompida "quase semanalmente" pelo próprio Chorão. "A cada ano o Chorão falava em finalizar o livro, que sofria diversas alterações", argumenta. Um dos motivos, ele explica, foi a volta de antigos membros à banda, como o guitarrista Marcão e o baixista Champignon.

Como se sabe hoje, o retorno dos originais foi turbulento. Em 2012, durante um show no Paraná, Chorão acusou o colega de retornar à banda por motivos financeiros e o baixista abandonou o palco. Meses depois, ambos apareceram em um vídeo constrangido de desculpas, publicado via YouTube. Meses de estrada se passaram quando, no dia 6 de março de 2013, Chorão foi encontrado morto no apartamento onde morava em São Paulo. Tentando dar continuidade aos projetos musicais enquanto enfrentava um divórcio e o luto, Champignon se matou em setembro do mesmo ano.
A responsabilidade pelo livro coube, então, aos herdeiros e aos profissionais escalados no início da produção, que decidiram continuar com a produção. Depois das disputas para decidir o rumo da obra, Jerri Rossato decidiu por retirar seu nome do livro - Eu Estava Lá Também é assinada apenas com "uma obra de Chorão" na capa. 
Mesmo com o fim ruidoso da banda acostumada a mensagens positivas, vida e obra do Charlie Brown Jr. seguem como referência para uma comunidade de seguidores por todo o país: Eu Estava Lá Também contou com o apoio dos fãs, que por meio de um crowdfunding ajudaram a financiar o livro com fotos que miram as lentes para o bom astral habitual do palco. Há imagens de Chorão abraçado com Pelé, viajando alegre ao lado dos colegas e do skate, esporte que foi uma de suas várias marcas.

Virada Cultural 2017

CENTRO
VALE DO ANHANGABAÚ – MUSICAIS
21           0h          Beatles num Céu de Diamantes
21           13h        60! Década de Arromba
21           16h        Alegria, Alegria
TABLADOS
COPAN – CABARÉ QUEER            
Av. Ipiranga
20           22h        Edy Star
21           07h        Marcelo Veronez – Não Sou Nenhum Roberto
André Frateschi e Banda Heroes













BOULEVARD SÃO JOÃO – TRIBUTOS
20           18h        Curumin canta Stevie Wonder
21           00h        Um Baile por Tim Maia Racional
21           03h        BluBell canta Madonna
21           06h        André Frateschi e Banda Heroes (Tributo David Bowie)
21           09h        Filipe Catto canta Cassia Eller
21           12h        RITCHIE & BLACKTIE – OLD FRIENDS – the songs of PAUL SIMON
21           15h        Roberta canta Roberto
21           17h        Dê um Rolê – Homenagem aos Novos Baianos
 The Baggios















7 DE ABRIL – ROCK          
20           18h        Finger Fingerrr
20           20h        The Baggios
20           22h        Maglore
21           00h        Vermes do Limbo+Bernardo Pacheco
21           02h        Pin Ups
21           04h        Garage Fuzz
21           06h        Dominatrix
21           08h        Ian Ramil
21           10h        Sara Não tem nome
21           12h        Luiza Lian – Oya Tempo
21           14h        Baleia
AROUCHE – JAZZ            
20           18h        Orleans Street Band
20           19h        DJ Leo Lucas
20           20h        Vruumm
20           22h        Nomade Orquestra
21           0h           Hammond Grooves
21           1h30      DJ Elohim
21           2h30      Sollana AllStars
21           4h           DJ Dubstrong
21           5h           Mental Abstrato
21           7h           Amoradia do Som e Dharma Samu
21           9h           DJ Tahira
21           10h        Carlos Malta
21           12h        Projeto Coisa Fina
21           14h        DJ Nuts
21           15h15    Julio Bittencourt Trio e Leo Gandelman
21           16h30    Tributo ao Weather Report
CINEMA AO AR LIVRE
RUA DO TESOURO x RUA DIREITA – REFUGIADOS
20           18h        Projeção do Making Off do premiado filme “Era o Hotel Cambrigde”, bate-papo com a Cineasta Eliane Caffé e atores do filme, entre eles refugiado e imigrantes
E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante






PRAÇA DOM JOSÉ GASPAR – INSTRUMENTAL  
20           18h        Vitor Araujo
20           20h        Quartabê
20           22h        Strobo
21           00h        The Gasolines
21           02h        Félix Robatto
21           04h        E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante
21           06h        Meneio
21           08h        M. Takara
21           10h        Quarteto Roda de Choro
21           12h        Amilton Godoy e Léa Freire – Homenagem aos compositores Brasileiros
21           14h        Guizado
21           16h        Dudu Lima Trio
21           18h        Guilherme Kastrup
PRAÇA DA REPUBLICA X PEDRO AMERICO – KOMBRODOMO    
20                           Komboio Cultural (AFROLATINA/JAZZ)
20                           Folk na Kombi
21                           Jazz na Kombi
DOM JOSÉ GASPAR  – PIANO NA PRAÇA             
21           01h        Eduardo Dusek
21           03h        Simoninha
21           05h        Fernanda Porto
AV. SÃO LUIS – BIG BANDS
20           18h        Big da Santa
20           20h30    Big Band Senior
20           23h        Banda Jazzco
21           1h30      Banda Urbana
21           4h30      Orquestra Arruda Brasil
21           7h          JuruFrevo Big Band
21           9h30      Ensemble Brasileiro
21           12h        Mario Campos Consenso Big Band
21           14h30    SP Jazz Big Band
21           17h00    Freedom Big Band
LOVE STORY – INTERVENÇÕES  
20           20H        Na Selva da Cidade
Video Mapping (projeções) – Theatro Municipal
20           21           O tempo não pára
20           23h        São Paulo, meu amor
PRAÇA DAS ARTES         
20           19h        Pink Floyd cover: Mágico do Oz + Pink Floyd
20           22h        Mr. Kurk: Fantasia + Clássicos do Rock
21           00h        Trupe Chá de Boldo + A Fantástica Fábrica de Chocolate
21           3h          Radiohead Cover: Nosferatu + Radiohead
CENTRO CULTURAL OLIDO
Sala Paissandu
21           03h        Pelico
21           06h        Isso Não É Um Sacrifício – Christiane Tricerri

Titãs





VIRADA DESCENTRALIZADA
PARQUE ANHEMBI – Sambódromo
PALCO ANHEMBI           
21           12h        Titãs
CHÁCARA DO JOCKEY  
PALCO 1
21           18h        Nando Reis
PISTA DE SKATE              
20           18h        Dubversão Sistema de Som
20           19h        tela bruta
20           22h        FEMININE HI FI
21           2h           Lei Di Dai – Gueto pro Gueto – Sistema de Som
Centro Cultural da Juventude  
20           18h        Lixomania
20           20h        Invasores de Cérebro
20           22h        Ratos de Porão
21           10h        Simbad, o Navegante – Circo Mínimo
21           14h        GAGÁ
21           16h        Banda Maverick Soul
21           16h        Não Recomendados
21           18h        Opalas + Nereu Mocotó
Centro Cultural Cidade Tiradentes        
21      00h             Tribo de Jah
Centro Cultural da Penha          
20           18h        Guilherme Arantes
20           20h        Vanusa
20           22h        Tributo a Jerry Adriani: Autoramas + Erika Martins + Astronauta Pinguim
+ China + Kiko Zambiancchi + Lilian + Eduardo Araujo
21           14h        A Feira de Chico, Gonzaga e Jackson
21           16h        SARAU DO PEIXE (Coletivo Estopô Balaio de criação, memória e narrativa)
21           18h        Erasmo Carlos
Centro Cultural Tendal da Lapa               
21           0h           Dead Fish
21           14h        Música “PROJETO ROCK NO TENDAL –  DEATH BY STARVATION VAZIO, CREPTUM, SLOV”
Centro Cultural da Vila Formosa            
21           20h        Mustache & Apaches
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
Sala Adoniran Barbosa
20           18h        Juçara Marçal
20           20h        Mariana Aydar
20           22h        Barbara Eugênia
21           01h        Tiê
21           02h        Anelis Assumpção
21           4h           Cidadão Instigado
21           8h           Operilda na Orquestra Amazônica
21           10h        Cocô de Passarinho
21           12h        Mahmundi
21           14h        Curumin
21           16h        Karina Buhr
21           18h        Siba
Biblioteca Viriato Correa           
21           16h        Rauzitos – A Lenda do Maluco Beleza
CASAS DE CULTURA
Casa de Cultura do Butantã
20           17h        Mustache & Apaches
Casa de Cultura do Ipiranga Chico Science
20           19h        Banda 123 & Jah!
Casa de Cultura do Campo Limpo
20           22h        Nanny Soul & Banda
21           11h        Banda 123 & Jah!
21           17h        Picanha de Chernobill
CINESESC
rua augusta, 2075
Retirada de ingressos 1h antes de cada sessão, na bilheteria do Cinesesc.


Trainspotting: Sem Limites. (Dir: Danny Boyle. GBR, 1996, 93’). Em Edimburgo, na Escócia, vive Renton, um jovem usuário de heroína que leva uma vida despreocupada, dividindo-se entre seu romance com a estudante colegial Diane e os encontros com seus quatro amigos viciados. 18 anos. 20/5. Sábado, 18h.


Sid e Nancy. (Dir.: Alex Cox. GBR/EUA, 1987, 100’). Baixista do grupo Sex Pistols, ícone do punk rock inglês do final dos anos 70, Sid Vicious já vivia uma vida problemática e revoltada como bom artista punk. Mas seu comportamento só piorou depois de conhecer a jovem Nancy Spungen. 18 anos. 20/5. Sábado, 20h.


T2 Trainspotting. (Dir.: Danny Boyle. GBR 2017, 117’). Renton retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência. 16 anos. 20/5. Sábado, 22h.

Polyester. (Dir.: John Waters. EUA, 1981, 86’). Fancine é uma mãe de família que luta para salvar seu casamento e seus filhos. Mas ela descobre que seu marido tem um caso com a secretária, que sua filha é ninfomaníaca e, seu filho, um maníaco pedólatra. 18 anos. 21/5. Domingo, 00h. 

The Doors. (Dir.: Oliver Stone. EUA, 1991, 120’). Anos 60. A ascensão de Jim Morrison, vocalista da banda de rock The Doors. 18 anos. 21/5. Domingo, 2h.

Garotos de Programa. (Dir: Gus Van Sant, EUA, 1991, 105’). Mike e Scott são dois jovens garotos de programa que moram nas ruas de Portland, Oregon. Os dois fazem parte de um grupo de libidinosos excluídos sociais, que se juntam num prédio condenado para fazer tumulto e se venderem a quem esteja disposto a pagar por eles. 18 anos. 21/5. Domingo, 14h.

Edukators. (Dir.: Hans Weingartner. ALE, 2004, 127’). Jan e Peter são dois jovens que acreditam que podem mudar o mundo. Eles se autodenominam “Os Educadores”, rebeldes contemporâneos que expressam sua indignação de forma pacífica. 12 anos. 21/5. Domingo, 16h.




quinta-feira, 20 de abril de 2017

Entrevista | Guilherme Arantes | Moto Perpétuo








Antes de começar uma carreira solo repleta de hits emplacados em rádios e novelas, Guilherme Arantes explorou uma veia roqueira como vocalista, tecladista e principal compositor na banda Moto Perpétuo. Ao lado de Egydio Conde (guitarra e vocais), Diógenes Burani (percussão e vocais), Gerson Tatini (contrabaixo e vocais) e Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocais), ele gravou o álbum homônimo da banda, lançado em 1974. A sonoridade pode ser comparada ao som progressivo feito pelo Yes ou pelos Mutantes na época, além de nomes como Clube da Esquina, Secos & Molhados, Genesis, King Crimson, O Terço e outras influências que o próprio Arantes citou, como algumas bandas progressivas italianas.











Agora, o álbum acaba de receber uma reedição em CD, já disponível nas principais lojas do Brasil e com todas as faixas que compunham a obra original, como “Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Matinal”, “Duas” e “Turba”, (você pode ouvir aqui: https://youtu.be/_u0g3UEsJbc.) Para celebrar o relançamento e o momento de redescoberta desta pérola perdida na história do rock brasileiro, Guilherme Arantes, em entrevista, deu detalhes de tudo que aconteceu nesta fase que ele lembra com carinho e define como “a infinita beleza do idealismo”. 




Você e Cláudio se conheceram na faculdade de arquitetura, certo? Como foi a aproximação com Egydio, Diógenes e Gerson? O que moveu vocês a montarem a Moto Perpétuo?


Diógenes foi o primeiro que eu conheci, alguns anos antes, precisamente na peça Plug, na Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar, uma peça produzida pelo meu primo Solano Ribeiro, importante produtor dos Festivais da Record e FIC da Globo. Com Diógenes e com Rodolfo Grani Júnior, eu tocaria com Jorge Mautner no Teatro Ruth Escobar e no Teatro Treze de Maio, em São Paulo. 
Quando entrei na faculdade de Arquitetura da USP, logo me aproximei da turma mais aficionada pela música, e Cláudio Lucci já tocava e lecionava violão clássico, além de estudar cello.
Com as afinidades no progressivo (Yes, Emerson, Lake & Palmer, e as bandas italianas Le Orme, e especialmente Premiata Forneria Marconi) a gente começou a querer montar um grupo. Eu já andava com repertório extenso, muitas influências do Clube da Esquina mineiro, que era “bola da vez” aqui no Brasil. 
Ao apresentar Cláudio para o Diogenes, aconteceu uma química muito poderosa, porque Diógenes sempre foi muito carismático, e assim começamos como um trio de sonhadores.
Logo Diógenes sugeriu o baixista Gerson Tatini, que morava na Aclimação, muito técnico e muito britânico em suas influências, especialmente do Gentle Giant, que era sua paixão maior.
Gerson, por sua vez, nos trouxe a indicação de Egydio Conde, que tinha muita afinidade com o blues, com Eric Clapton e com David Gilmour, então a banda estaria completa.


Quais foram as bandas ou artistas que inspiraram vocês a chegarem na sonoridade do disco lançado em 1974?

Milton Nascimento, Som Imaginário, o movimento Clube da Esquina de Milton, o Gil do “Expresso 2222”, Taiguara do disco “Fotografias”, Walter Franco, e todo o Progressivo mundial (Yes, ELP, King Crimson, Genesis, e muito fortemente as bandas italianas Le Orme e Premiata Forneria Marconi. O Moto Perpétuo era na verdade uma italianada, e ainda fomos ensaiar numa casa no Brás, então éramos chegados a essa italianice.


Como funcionava o processo de criação dos sons que você compôs para o disco? Você já mostrava as músicas com suas estruturas definidas e mais próximas do resultado final, ou a banda ainda tinha uma participação massiva nessa construção?

O grosso do repertório eu já tinha alinhavado sozinho (“Mal o Sol”, “Verde Vertente”, “Conto Contigo”, “Matinal”, “Turba”, “Os Jardins”). Mas uma vez incorporados os demais músicos, houve uma inter-relação criativa muito forte, pois os caras eram muito bons, e muito superiores a tudo que eu já havia participado, então eu comecei a compor mais e mais canções como “Sobe” e “Duas”, que já incorporavam os elementos dos demais. Cláudio, por sua vez, já tinha composto  sozinho “Três e Eu” e “Seguir Viagem”.


Você lembra de quais pianos utilizou nas gravações?

As gravações foram no estúdio da Sonima, na Av. Rio Branco, Barra Funda, São Paulo, sob a produção de Peninha Smith. Havia um piano de meia-cauda de qualidade regular, possivelmente um Essenfelder (é o que eu me lembro) ou talvez um Gotrian-Steinweg... Usei ainda um Fender Rhodes, uma Echoplex, um Phaser Shifter Maestro, e um órgão Hammond, todos alugados da Transassom.


Como você vê o papel do produtor Moracy do Val no resultado do disco?

Moracy foi fundamental para conseguir nossa aprovação na Continental, com o queridíssimo Byington (presidente) e com o insuportável Rodrigues (gerente de vendas). Sem Moracy, não haveria nosso LP em 1974.
Moracy foi também influenciador com suas ligações literárias, citações de Ezra Pound, Poe... sempre foi um personagem culto, e que vinha embalado pelo sucesso dos Secos & Molhados, que tinha esse viés literário e poético muito forte. Mas Moracy já experimentava o desmonte dos Secos, a briga interna da banda, e isso prejudicou muito o Moto Perpétuo, pois ficamos perdidos com a ausência absoluta de Moracy, que não tinha muito o que fazer por nós. Depois de um único show no Teatro 13 de Maio, nada mais Moracy pode fazer pelo Moto Perpétuo.Considerando que você compôs a maior parte das faixas do álbum, qual você acha que foi a principal diferença entre o processo de criação dessas músicas para o mesmo processo em sua carreira solo,  que começou na sequência?

Falando muito pessoalmente, a principal diferença seria a minha libertação da camisa-de-força que representava a ideologia do que se chamava “rock”. Essa definição era muito importante na época, era como se houvesse um código de honra para se pertencer a um “movimento” e se enquadrar no show-business incipiente que engatinhava nesse setor da música. Enquanto isso, o Brasil dos auditórios, tradicionalmente romântico, seguia com os sucessos de novelas nos programas de televisão. Eu vivia dividido, aliás como todo mundo, entre a realidade nua e crua do dia a dia de um país atrasado, e os sonhos mirabolantes de uma moda (o rock progressivo) que vinha de países tecnológicos com uma cultura totalmente diferente do primeiro mundo.
Esse choque pra mim já havia nascido resolvido: eu sempre preferi a televisão, o povão, o romantismo, então resolvi mergulhar com tudo quando a chance aconteceu. Passei a compor focado na realidade, virando cantor popular. Mas nunca deixei de gostar do progressivo e o Moto Perpétuo sempre foi e sempre será uma banda excelente, um trabalho belíssimo, que fica para ser avaliado pelas novas gerações.


Você considerou a hipótese de reunir a banda com os seus integrantes originais alguma vez depois do disco? 

Não. Nunca gostei da ideia. O Moto Perpétuo foi um grupo muito paradoxal, com muitos conflitos de base. Veja só: o rock progressivo era uma estética aristocrata, devido à erudição musical, um dos seus principais alicerces. O Moto Perpétuo tinha esse viés estético de italianada do Brás, vivíamos em linhas de trens, indo para o ABC – coisa que herdamos do Cláudio Lucci, que passou a ter essa liderança junto com o Diógenes. Eles se tornaram mais líderes do que eu. Só que essa exacerbação da italianada induzia a uma estética operária: uma banda progressiva-operária? Peculiar demais. 
Segundo conflito de base: a androginia era a bola da vez no mundo, questionamentos de sexualidade numa era de Alice Cooper, Lou Reed, T-Rex, Secos e Molhados, Dzi Croquettes... e o Moto Perpétuo era uma banda sem a menor vocação pra esse tipo de componentes na estética. Mais um motivo pra gente não receber destaque nenhum de mídia alguma. Todo mundo era andrógino, menos a gente. Só levávamos pedrada porque éramos altivos e nos achávamos especiais em tudo. Olhando bem hoje, acho que éramos de fato.


O rock progressivo setentista brasileiro de bandas como o Moto, O Terço, Módulo 1000 e Os Mutantes, de tempos em tempos é revisitado e redescoberto por novos amantes da música. Como você acha que o público mais jovem pode reagir a esse trabalho hoje em dia?O progressivo brasileiro é muito bom, assim como o da Itália, da Argentina... é um movimento de muita qualidade mas com um foco muito forte na técnica musical, o que o fez não ter uma compreensão plena da crítica, especialmente a crítica escrita, que sempre tem uma afinidade maior com a literatura, a poesia. De um modo geral, em termos mundiais, o progressivo não era forte em letras e versos porque privilegiava o som, o instrumento, o virtuosismo. Mas mesmo aqui havia exceções, como o grupo A Barca do Sol, que tinha Geraldinho Carneiro para escrever (bem).


Você tem alguma faixa favorita no “Moto Perpétuo”? 

“Turba” e “Três e Eu” são as minhas favoritas. Mas o disco todo é de uma beleza, de uma pureza extraordinárias. Tínhamos 20 anos de idade!


Que lembrança ou sentimento você guarda com mais clareza dessa sua fase musical?

Lembro de muitas angústias, de uma luta constante contra tudo e todos, mas acima de tudo, a infinita beleza do idealismo. Isso está estampado claramente na capa, muito linda em silk screen, de autoria do nosso amigo Marcus Campacci. Isso ficará: a infinita beleza do idealismo.