quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Cazuza ao som de Lispector


por Rafael Julião


“Eu queria anunciar aqui o seguinte: a pessoa que eu mais amo na minha vida chama-se Clarice Lispector”. Essa afirmação foi feita por Cazuza, já um pouco tocado pela bebida, durante sua participação em um show de Angela Ro Ro no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, em 1988.[1] Logo em seguida, o artista disse à plateia que queria cantar uma “poesia” de Clarice que ele havia musicado. A tal poesia era, na verdade, um trecho de Água Viva, de 1973, devidamente adaptado para se tornar letra da canção “Que o Deus venha”.[2]
O letrista também se inspirou em Clarice para compor “A via-crúcis do corpo” [3], desta vez pautado no livro homônimo, publicado em 1974. Para além dessas relações mais diretas, é possível encontrar ecos clariceanos em várias imagens de Cazuza, bem como na recorrência do tema da liberdade, que não raro se projeta em um processo de aprendizagem pelo amor e pelo prazer (tal como em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969), na verdade, construído por meio de uma espécie de “desaprendizagem” dos valores sociais estabelecidos.
Vale também pensar a aproximação do compositor e da escritora a partir da linha temporal que os liga. A obra de Clarice Lispector insere-se no intervalo entre as décadas de 1940 (a partir de Perto do coração selvagem, de 1943) e de 1970 (com a morte da autora em 1977). Veja-se que Clarice atravessa um momento fundamental da história do século XX, em um período que deixa entrever a ponte que leva das discussões existencialistas e das discussões de gênero elaboradas na primeira metade do século XX (com destaque para as respectivas obras de Sartre e de Simone de Beauvoir) aos movimentos libertários dos anos 1960 e 1970.
Assim, as premissas existencialistas de que a existência precede à essência e de que os seres humanos são “condenados” a serem livres, bem como o entendimento de que os papéis sociais vinculados ao gênero (mas também à classe, à raça e à orientação sexual) são socialmente construídos, permitiram novos olhares sobre a questão da liberdade. Nessa esteira, a contracultura dos anos 1960 e 1970 propôs-se a contestar os valores da sociedade patriarcal burguesa, recusando o establishment e apontando para novas formas de experiênciaNesse conjunto, devemos compreender não apenas os movimentos hippiepunk, e o Maio de 1968, mas também todos os movimentos identitários que ganharam força naquele momento. Além disso, precisamos estar atentos à emergência do rock’n’roll e de suas derivações, que funcionaram como a trilha sonora das contestações da juventude da época.  
Veja-se que Cazuza nasceu em 1958 e, portanto, viveu sua adolescência durante os anos de 1970, já sob o influxo desses movimentos contraculturais. De algum modo, sua obra dos anos 1980 revela, de modo peculiar, os pontos de interseção entre esse universo e o de Clarice Lispector, lançando luz também sobre o percurso histórico que envolve todas essas expressões. Além disso, vale considerar o impacto da AIDS nos anos 1980 (e dos casos célebres de overdose nos anos 1970) em relação a esses movimentos libertários, o que serviu de matéria prima para a canção “Ideologia”, de Cazuza, lançada em álbum homônimo de 1988, mesmo ano do show onde o artista afirmou seu amor por Clarice e cantou sua versão de “Que o Deus venha”.
Segundo posterior relato de Frejat, Cazuza havia lhe dado o esboço da canção para que o parceiro fizesse ajustes, provocando surpresa ao explicar que se tratava de um texto da escritora: “não dava pra imaginar que era um texto de Clarice, de tão parecida que a letra estava com o jeito dele escrever”. Para compreendermos a semelhança, vale citar o fragmento original:
Sou inquieta, áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto eu continuo inquieta, é porque eu preciso que o Deus venha.  Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive e a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas eu sei que vou ter paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida. (LISPECTOR, 1998, p.51)
A adaptação de Cazuza, de modo geral, limita-se a passar o eu-lírico para o masculino e fazer o recorte dos versos, aproveitando e ressaltando o caráter poético (e musical) do fragmento narrativo de Clarice Lispector, que sofre apenas sutis modificações. Em relação ao conteúdo, é possível identificar alguns tons do sentimento de inquietude, que se manifestam de maneiras comparáveis no trabalho do compositor e da escritora.
As personagens clariceanas se percebem diante de três grandes instâncias de aprisionamento, que podem ser esquematizadas do seguinte modo: a condição social (onde pesam especialmente as opressões de gênero), a condição humana (onde se problematiza a falta de controle sobre o próprio destino) e, por fim, a linguagem (que tenta apreender e dar sentido à realidade). O embate entre esse mundo interior convulso e essas limitações fornece matéria para grande parte da obra da escritora.
Em Perto do coração selvagem (1943), por exemplo, a personagem Joana afirma: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”[4] Esse célebre fragmento ilustra não apenas a centralidade desse tema na obra de Clarice, mas o próprio embate com a linguagem, isto é, com a impossibilidade de dar nomes precisos às dimensões do mundo subjetivo. No mesmo livro, a liberdade, quando não aparece como desejo extremo e inenarrável, fruto da angústia das limitações da condição humana e de sua linguagem também limitada (e limitadora), aparece como opção heroica – “Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo”.[5] Nesse sentido, “querer o fluxo” corresponderia a negar os enquadramentos existenciais, sociais e expressionais. A opção de ser livre é heroica na medida em que acarreta todo o ônus do gauchismo, da dor do não-pertencimento, da luta contra um sistema pré-estabelecido já viciado no disfarce.
O próprio título do livro, Perto do coração selvagem – cuja epígrafe revela a referência a James Joyce, que fala sobre alguém que estava só, “perto do selvagem coração da vida” – já prenuncia que a narrativa estará centrada nesse mundo subjetivo, indomesticável e inquieto. Vale pontuar que universo semelhante pode ser encontrado em composições icônicas de Cazuza, como nas letras de “Down em mim” (“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nessas noites quentes de verão/ e nem me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão”) e de “Só as mães são felizes”, onde justamente a figura da mãe se desenha em negativo em relação às criaturas que habitam “o lado escuro da vida” (“nunca viu Lou Reed/ walking on the wild side” ou “você nunca ouviu falar de maldição/ nunca viu um milagre/ nunca chorou sozinha num banheiro sujo/ nem nunca quis ver a face de Deus”).
Segundo Benedito Nunes, mais do que uma preocupação em filosofar, estabelecer ou discutir doutrinas, há na obra da escritora “uma intuição sensível de escrever sobre a ameaça da angústia que nos acolhe, quando se anseia viver sob o signo da busca da liberdade”.[6] Sem dúvidas, essa angústia e essa inquietude, vinculadas, sobretudo, ao desejo de liberdade, são pontos que unem profundamente as obras de Clarice e de Cazuza.
Como já foi dito, Cazuza também se inspirou diretamente em Clarice Lispector para escrever “A via-crúcis do corpo”, em referência ao livro de contos homônimo da escritora, de 1974. A composição visita o universo de Clarice, em seu caráter geral, mas também por meio de referências a essa obra específica, como nos versos: “Só não volta a infância perdida/ só não nos livramos de morrer à toa”, “A dor pode ser disfarçada/ mas a via-crúcis do corpo/ já foi há muito traçada” e “Será que eu tenho um destino?/  Não quero ter a vida pronta/ como um plano de trabalho/ como um sorvete de menta”.
O eu-lírico da canção, espelhando a narradora incompleta e inquieta, pergunta-se sobre a dor da existência – a via-crúcis do corpo e da alma – e a dúvida sobre o destino humano, na qual a liberdade é, a um só tempo, dádiva e condenação. Note-se que esses versos também reverberam o livro Água viva, que deu origem a “Que o Deus venha”, onde a figura de Deus (“o Deus”, delimitado pelo artigo definido) revela o princípio e o fim de todas as coisas, atribuindo sentido à vida e à morte, trazendo plenitude e quietude para os sujeitos, mas também se oferecendo como interlocutor dos questionamentos sobre a existência. Tal como em “Só as mães são felizes”, são justamente as criaturas do lado escuro da vida que aspiram ver a face de Deus.
O fragmento específico que dá origem a “Que o Deus venha” toca em um ponto de constante inquietude na obra de Cazuza: a incapacidade de amar, que se apresenta como o grande pathos do compositor. A recorrente afirmação do não saber amar (em tensão com seu intenso desejo de transitividade amorosa) atravessa várias de suas composições e se faz notória nos versos “embora amor dentro de mim eu tenha/ só que eu não sei usar amor”.
Formulações semelhantes aparecem nas letras de “Malandragem” (“eu sou poeta e não aprendi a amar”), “Rock’n’geral” (“ou de um coração meio surdo que não sabe amar”), (“não amo ninguém e é só amor que eu respiro”) “Não amo ninguém”, “Filho único” (“estou na mais completa solidão/ do ser que é amado e não ama”), “Nunca sofri por amor” (“será que nunca amei de verdade/ ou o verdadeiro amor é assim”), “Carente profissional” (“levando em frente/ um coração deprimente/ viciado em amar errado/ crente que o que ele sente/ é sagrado/ e é tudo piada”) e “Fracasso” (“mas eu tenho a impressão/ que todos nós somos fracassados/ eu, por exemplo: não amo…”).
De modo mais amplo, Água Viva fala do mistério do instante que, a um só tempo, é vida e morte – criação e destruição. O livro, que começa na “aleluia” de um parto, no “uivo humano da dor de separação”, mas que é “grito de felicidade diabólica”, fala da explosão do nascimento, da transição, da existência que se faz no limite entre a dor e a alegria, sempre avançando para o próximo instante que provoca medo e fascínio, pois se trata do desconhecido. Os versos adaptados de Cazuza concentram esses sentidos ao apontar o perigo da vida, o sempre inesperado.
Vale notar também que há várias palavras que se repetem neste livro, bem como em toda a obra da escritora: “grita”, “arde”, “pulsa”, “vibra”, “flui”. Como já foi dito, essas palavras estão diretamente ligadas a um espaço interior indomesticável, que é aprisionado pelos limites da condição humana, pelas molduras sociais que se lhe impõe e pelo discurso. Esse mesmo conjunto de palavras (ou ao menos seus sentidos) atravessam, em grande medida, as composições de Cazuza. E, o “objeto gritante” que se narra em Água viva também se relaciona intimamente ao universo rock, de onde o artista extrai a natureza de seu canto e de seu grito.
Por fim, vale pensar que “o lado escuro da vida”, ou aquilo que se encontra “perto do coração selvagem”, não teria tanta força se não colocasse em tensão o sagrado e o profano, o grito e o silêncio, o fluxo e o limite, a transgressão e a redenção, o roubo e a rosa. E assim, a letra que começa com o sujeito “áspero”, “inquieto” e “desesperançado” projeta a esperança de ter paz antes da morte e, mais que isso, um fundo desejo de delicadeza. E é nesse espaço de conflito que se iluminam, mutuamente, as obras de Cazuza e de Clarice Lispector.


[1] O registro do áudio do show de Angela, no qual Cazuza faz essa declaração e canta “Que Deus venha” está disponível em www.youtube.com/watch?v=X3JzJHJg758
[2] “Que o Deus venha” (Frejat/ Cazuza/ Clarice Lispector). Gravada originalmente pelo Barão Vermelho no álbum Declare Guerra (1986) https://youtu.be/cbtgnvSYh_g e regravada por Cássia Eller em Cássia Eller (1990).  A única gravação com a voz de Cazuza é justamente o registro informal do áudio desse show de Angela Ro Ro.
[3] “A via-crúcis do corpo” (Cazuza). Texto não musicado.
[4] In: Perto do Coração Selvagem (LISPECTOR, 1998:70)
[5] In: Água Viva (LISPECTOR, 1998, p.16)
[6] NUNES apud HELENA, 2006:38.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

“Envelhecer é uma loucura, não é para maricas” – Rita Lee



Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica, entre outras virtudes. Confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante. Se um belo dia você me encontrar pelo caminho, não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo. Se o passado me crucifica, o futuro já me dará beijinhos. […] Enquanto isso, sigo sendo uma septuagenária bem ‑vivida, bem‑experimentada, bem‑amada, careta, feliz e… bonitinha. Lucky, lucky me free again*. Tempo para curtir minha casa no mato, para pintar, cuidar da horta, paparicar meus filhos, acompanhar minha neta crescer, lamber meus bichinhos, brincar de dona de casa, escrever historinhas, deixar os cabelos brancos, assistir novela, reler livros de crimes que já esqueci quem eram os culpados, ler biografias de celebridades com mais de setenta anos, descolar adoção para bichos abandonados, acompanhar a política planetária, faxinar gavetas, aprender a cozinhar, namorar Roberto e, se ainda me sobrar um tempinho, compor umas musiquinhas.”
– Rita Lee, no livroRita Lee – Uma autobiografia. São Paulo: Globo Livros, 2016.
*Trecho da canção “Free again”, de Barbra Streisand. Em tradução livre, “Sorte, sorte minha, estou livre novamente”.
Durante o lançamento da sua aguardada autobiografia, Rita Lee, nossa roqueira maior, posa com exclusividade para a revista QUEM aqui reproduzida, afirma que o essencial da vida é amar os bichinhos e colher a própria comida. 
– por Guilherme Samora (texto e fotos)
Os números são astronômicos: maior vendedora de discos do Brasil, mulher que tem a maior quantidade de hits nas paradas do país e campeã de músicas em aberturas de novelas. Os sucessos – dezenas – embalaram e continuam a embalar diferentes gerações. Os discos são vendidos no Brasil e fora dele. Mas, aos 68 anos, vivíssima e cheia de graça, Rita Lee considera:“O maior luxo da vida é dar amor aos bichos e ter uma horta”.
E continua: “Quanto mais simples, melhor. Fazer economia é chique e ecológico. Nessa visão, poder comer da própria horta é um luxo. Eu não quero ter uma Ferrari e ficar me exibindo em rua esburacada. Eu não tenho deslumbre. Não vou me entupir de coisas materiais sem sentido, mansões genéricas…Eu gosto de ficar bem na minha, com meus bichos, que são entidades com as quais divido minha vida. Eu fico comovida quando eu lido com eles, quando os trato, quando trocamos figurinha telepaticamente. É um luxo! Vivo cercada de bichos por carência do divino. E eles são o divino”.

A melhor terapia
Avessa a badalações e curtindo os bichos e a família, a vida da grande artista – cujo nome já está gravado entre os maiores da música mundial – se torna naturalmente alvo de curiosidade. Aposentada dos palcos – mas não da música –, Rita compõe, grava quando quer no estúdio que tem em casa, e, nos últimos tempos, dedicou-se a escrever sua autobiografia, que está sendo lançada pela Globo Livros. “Ao escrever o livro, achei que falar dos traumas da vida seria muito mais pesado do que foi. Senti que foi bom: percebi que nada era tão ruim quanto eu achava. Esses assuntos ficavam como uma nuvem na minha cabeça, em cantos meio escuros, sem que eu pensasse muito neles. Colocar no papel foi a melhor terapia que fiz na vida. Me fez um bem danado. Escrevi e me libertei. Aliás, escrever a bio foi como se eu estivesse me olhando de fora. Sabe quando dizem que antes da morte passa aquele filminho da nossa vida toda? Foi assim que aconteceu, vi o filminho. Mas com a diferença de que estou viva”, descreve, nessa raríssima entrevista cara a cara.
Bem viva, cheia de saúde (“Às vezes a coluna grita, mas não posso reclamar”) e linda com seus cabelos grisalhos, ela está em paz. “Estou gostando muito desta Rita de hoje. Ela é a mais familiar para mim. Sinto que sempre fui essa daqui e representei as outras. Gostei de várias delas, não gostei de outras. E, se eu quiser, às vezes puxo arquivos das outras: posso voltar à criança, à grávida… Mas sinto que essa sou eu, com meu cabelo branco, minhas rugas, de bem com tudo o que vivi e continuo vivendo”.

Nasce uma grande escritora
Rita não precisa mais provar nada. Sua música permanece atual, relevante. Tanto que, nas ruas, seu público vai de crianças a senhoras e senhores. Com um grande apelo entre jovens e adolescentes. Uns param a artista para dizer que se consideram as ovelhas negras da família, outros têm “Mania de Você” como trilha sonora de uma paixão, alguns se identificam com a rebeldia de “Orra Meu”, existem os que se sentem protegidos ao ouvir “Reza”. “Eu dou muito valor para isso. Aquela música, que era uma coisa minha, torna-se algo legal para outra pessoa, que me conta que fez bem para ela. Fico achando que é para isso que fiz música.”
Além das glórias nas paradas, nossa roqueira maior passeou com muito sucesso por novelas, filmes, apresentou programas de TV, fez rádio, teatro, musicais, pintou quadros… A biografia de Rita é pra lá de saborosa e ela nos revela mais uma faceta: a de grande escritora. A infância, passando pelo início da carreira, a prisão em 1976, o encontro de almas com o marido, Roberto de Carvalho, com quem pariu clássicos e três filhos, Beto, João e Antonio – tudo é documentado de maneira honesta. E com detalhes históricos que emocionam. É daqueles livros que não se consegue parar de ler.

“Não tenho deslumbre. Não vou me entupir de coisas materiais sem sentido”
Nas páginas, Rita trata também da paixão por um tema que cercou sua vida desde pequena: os extraterrestres. E se ela avistasse um disco voador e ainda pudesse pedir para viajar para qualquer tempo? “Se um disco voador aparecesse na minha frente eu entraria direto! Meu sonho! Depois, se eles me oferecessem essa gentileza de me levar para qualquer tempo ou lugar, pediria para dar uma volta no futuro. Queria espiar como serão meus bisnetos, os filhos de Izabella (filha de Beto). Ver também como ela estará, o que fez da vida dela. E depois daria um pulinho no passado, para visitar minha infância, meu pai e minha mãe. Se bem que com a bio foi isso que eu fiz: eu visitei o que já vivi. É impressionante como minha memória dessa época mais antiga é boa. Lembro de tudo, com os mínimos detalhes. Lembro com mais clareza dos meus 5 anos do que o que eu fiz ontem!”
E se nesse passeio encontrasse com a Rita dos 17 anos e pudesse dar um conselho a ela? Envelheça! Mas saiba que envelhecer é uma loucura! Envelhecer não é para maricas. Daria conselhos para ter mais cuidado com a postura, com a coluna! E também diria: experimente todas as coisas que quiser, mas se proteja um pouco mais. Não precisa entrar tão de sola em tudo. Dá uma maneirada em uma coisa ou outra.Ah, e faça música: vai dar tudo certo.” E como deu, Rita! É um orgulho ter uma artista como você entre nós. Muito obrigado por existir e por dividir sua música e sua vida com a gente.
Rita Lee – uma autoentrevista
Sempre espirituosa, a cantora e escritora topou um desafio proposto por QUEM: já que está lançando sua autobiografia, que ela fizesse uma autoentrevista. O resultado vem a seguir
Rita Lee: Você sempre disse que só depois de morta uma biografia sua ficaria completa. O que a fez mudar de ideia?
Rita Lee: Minha vida como “artista performática” morreu, a biografia que escrevi é sobre aquela pessoa que um dia fui.
Falando em vida, você acredita em Deus?
Desse deus à imagem e semelhança dos humanos sou atéia… Entendo o Divino através dos animais, das plantas e das pedras. Sou meditante e pratico a iconofilia colecionando imagens de santinhos e divindades de todas as religiões. E luxo para mim não é ter uma Ferrari, é comer da minha própria horta.
Tem saudade do palco?
Nenhuma: 50 anos chacoalhando o esqueleto foi a conta certa.
O que acha do panorama da música do Brasil de hoje?
Aquele meu velho refrão continua atualíssimo: “Ai, ai meu Deus, o que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira? Todos falam sério, todos eles levam a sério, mas esse sério me parece brincadeira!”.
Como você encara a passagem do tempo?
Envelhecer não é para maricas. Dizer que a idade está na cabeça é debochar da minha coluna vertebral. Nada contra quem apela a botoxes e plásticas, mas eu “garrei” carinho nas minhas rugas, pelancas e cabelos brancos, essa é a minha old new face.
A notícia de que você vai ingressar na vida política procede?
(Rita Lee boceja e já ia declarar a entrevista por encerrada quando vem a pergunta que não quer calar.)
Rita, você vai voltar para os Mutantes?
Zzzzzz…

Texto e fotos: Guilherme Samora
Fonte: Revista Quem

terça-feira, 26 de junho de 2018

Fundador da Secos & Molhados embarca carreira solo com disco LAGO AZUL















Gerson Conrad foi o fundador e membro original de umas das maiores bandas brasileiras, a Secos & Molhados. 37 anos fora do mercado fonográfico, o músico volta agora a carreira solo com o lançamento do CD LAGO AZUL, com 12 faixas autorais e com produção do próprio Gerson em parceria com o guitarrista e arranjador, Aru Jr.
LAGO AZUL é um daqueles discos que não se prende a um determinado estilo musical, não tendo assim rótulos, como já carta marcada na carreira de Gerson. Porém, o som do álbum passeia entre o rock e o blues, o pop-rock, entre outros.
Segundo Conrad, no álbum "pode-se ouvir referências e estilos musicais de toda a sorte.".


A seguir, a entrevista que a Revista Arte Brasileira fez com o músico:

Para você, tem um pouco de Secos e Molhados em LAGO AZUL?
Eu diria que sem falsa modéstia, se os S&Ms estivessem atuando ainda hoje, estaríamos fazendo uma música muito próxima do que registrei em LAGO AZUL. Refiro-me à qualidade melódica e literária que considero uma evolução natural daquilo que pude contribuir para o extinto grupo.

Ainda nessa pergunta, você ficou 37 anos fora do mercado fonográfico. Esse tempo serviu como forma de “meditação” para a criação do álbum novo?
Serviu como amadurecimento e experiência de vida. Em verdade os 37 anos em que fiquei ausente do mercado fonográfico foi uma opção de bom senso em não confeccionar nenhuma produção independente. Explico: Sempre achei que minha contribuição para a indústria fonográfica ou, gravadoras, havia sido considerável no tocante à parte que me coube no S&Ms. Mudamos o comportamento da indústria de discos ultrapassando seis vezes mais o que vendia o “Rei” Roberto Carlos. Fomos um divisor de águas para a indústria fonográfica brasileira. Assim sendo, sempre considerei de que os produtores ou dirigentes dessas empresas, tinham no mínimo, a obrigação de escutar meus trabalhos. Gostarem ou não, não era a questão. O que eu sabia era que não me incentivava produzir independentemente pois, não teria como distribuir meus discos em território nacional ficando assim limitado a alcançar um público restrito em meus shows ao vivo.

E por que e quando surgiu a ideia de lançar esse trabalho?
Comecei a registrar em estúdio todo meu repertório de composições inéditas em janeiro de 2017, motivado pelo meu guitarrista, produtor e arranjador, Aru Jr., aproveitando a facilidade de seu estúdio doméstico. Em meados do mês de outubro, tínhamos material para alguns CDs. O intuito era o de organizar anos de composições inéditas, e não o de uma produção independente. Coincidentemente, tive nessa época, a oportunidade de conhecer e apresentar o que havíamos produzido ao Rafel Ramos da gravadora Deckdisc. Rafael, se encantou com o que ouviu e me propôs um contrato com a Deck para lançar um CD físico e,em mídias digitais, confirmando assim, minha intuição de que um dia, seria escutado por uma gravadora outra vez. Assim nasceu LAGO AZUL, após uma audição desse material e uma escolha das obras de primeira emoção.

12 faixas compõem o álbum. Gostaria que você falasse um pouco do seu processo criativo.
O álbum LAGO AZUL, reúne algumas composições que datam dos anos 80, algumas da década de 2000 e outras mais recentes, dos últimos dois anos. Compor, para mim é quase um exercício diário. Registro ideias melódicas frequentemente e no momento de criação, muitas vezes uso desses registros para uma composição. Obras como LAGO AZULESTAÇÃOFEITO VENENOMEIAS DE BRECHÓ, foram compostas na década de 80 quando comecei a escrever algumas letras ou poemas de próprio punho. Até então, só compunha melodias e dependia de amigos poetas ou letristas para finalizar minhas criações. _ Parceiros como Pedro Levitch vem à partir de 1986 quando nos tornamos amigos. TEIAS e AMAR ALGUÉM são dessa época, já GOTHAN CITY é do final dos anos 90. Já Alessandro Uccello, se torna um parceiro nos anos 2000.

Fale também sobre a questão musical e poética das faixas.
Sou um compositor eclético e considero a música que faço, de cunho universal, sem rótulos ou regionalismos. Meu trabalho enquadra-se no gênero Pop-Rock. Tanto a qualidade musical como literária é uma constante de meus registros em discos. Não vejo de outra forma quando escuto hoje em dia, TREM NOTURNO (Gerson Conrad e Zezé Motta - Som Livre 1975)  ROSTO MARCADO (Gerson Conrad – Continental 1981) ou, LAGO AZUL (Gerson Conrad – Deck 2018) sem dúvidas, herança do extinto S&Ms.

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?
(rsrsrs) Talvez, a composição LAGO AZUL, que em 1981 inscrevi para o último Festival Globo-Shell e que foi considerada “or concurr” pelo produtor Solano Ribeiro, conforme carta em papel timbrado da Rede Globo, que guardo até os dias de hoje, alegando que a música estava acima da média das composições concorrentes e, que por tal motivo, não participaria do festival. Acho que nada mais curioso do que esse fato. Ah! Outra curiosidade, é que o CD LAGO AZUL foi todo gravado por Aru Jr. e por mim. Por uma questão de logística, acabamos não convidando músicos para esse trabalho.

Fique à vontade para falar o que quiser.
“Feito a dança onírica de notas musicais.” Assim era e é, minha relação como músico, compositor e intérprete.


"Lago Azul": https://youtu.be/blOUUXogwSY

"Cobra": https://youtu.be/MM7JrftACp0





terça-feira, 29 de maio de 2018

Frejat: Pronto pra Encarar - eNTrevista Rolling Stone


Com shows em formatos diferentes, novas composições, ações pela classe artística e a volta ao posto de produtor, a vida de Frejat pós-Barão Vermelho está ainda mais atribulada do que antes



por José Júlio do Espírito Santo

O entra e sai de equipamentos, técnicos e produtores costuma agitar uma casa discreta, escondida em uma alameda ao pé do morro e a poucos metros da Lagoa, no Rio de Janeiro. Hoje, ela está calma e quem atende a porta são os anfitriões: Brou, um labrador preto, enorme, bonachão, já na terceira idade, e que tem um xará humano muito famoso. “Brou é como Cazuza costumava me chamar quando a gente era moleque”, explica Frejat, enquanto apresenta outra moradora do lugar, Milu, uma vira-lata que veio de São Paulo para o Rio de Janeiro ainda filhotinha. O Estúdio do Brou é o local de trabalho e criação do cantor e compositor, que atualmente toca uma carreira solo cheia de correria. A parede da escada que leva ao escritório é decorada por Discos de Ouro emoldurados e parece traçar uma linha cronológica, começando pelo primeiro grande sucesso de vendas, com o Barão Vermelho, banda pioneira do tal BRock, que teve Frejat na linha de frente – inicialmente, como guitarrista e depois, com a saída de Cazuza, também como vocalista – até que ele também saiu, em janeiro de 2017. Foram 12 álbuns lançados nos 17 anos com o Barão e mais quatro da carreira solo, inaugurada com Amor pra Recomeçar (2001).
O sotaque do guitarrista não esconde. Carioca da gema, Frejat nasceu em 21 de maio de 1962, ano em que uma de suas bandas favoritas, The Rolling Stones, subia ao palco pela primeira vez. Apesar de ser um ícone do rock nacional, diligente e dedicado ao trabalho, Frejat nunca abraçou o jargão sex, drugs & rock and roll – prefere cuidar da saúde com ginástica e boa alimentação. É casado há mais de 30 anos com a empresária Alice Pellegatti, e com ela tem dois filhos: Julia, 18, envolvida nas artes visuais, e Rafael, 22, que integra a banda Amarelo Manga. “Além da família e dos bichos, a coisa de que eu mais gosto é música”, ele afirma sem saber exatamente de onde veio essa paixão. A mãe, de origem judia e cuja família passou pelo antissemitismo polonês antes de vir ao Brasil, e o pai, de origem árabe e cujos pais, cristãos, também acharam no Brasil uma terra livre da perseguição religiosa, sempre o apoiaram, mas não eram fissurados na arte. Frejat brinca com a ascendência: “Sou a prova viva de que isso pode dar certo”.Deu certo e deu origem a um dos nomes mais importantes do primeiro escalão do rock brasileiro. Na ativa há quase quatro décadas, atualmente o ex-guitarrista do Barão Vermelho comanda dois shows diferentes, nunca pausa o trabalho como compositor e tem alguns projetos constantemente ocupando sua mente. Um deles nasceu no Rock in Rio VII, no ano passado, quando Frejat abriu o Palco Mundo, no dia 17 de setembro, com uma versão reduzida do espetáculo Tudo Se Transforma. “Eu achei que estaria com o show pronto um pouco antes do festival para poder testar, mas é aquela coisa de cronograma: nem sempre você consegue fazer do jeito que imaginou. Ensaiei umas 25 músicas com a banda por um tempão, e já estava em cima da estreia quando reduzimos o repertório para cerca de 18, para adequá-lo”, explica. O primeiro teste foi ao vivo, já no gigantesco palco, mas deu certo.
Frejat tem uma forte ligação com o festival carioca. O Barão Vermelho se apresentou duas vezes na primeira edição dele, em 1985. A primeira delas ganhou registro em CD, lançado em 1992 com o título Barão Vermelho ao Vivo e relançado em CD e DVD como Rock in Rio 1985. No Rock in Rio V, em 2013, foi a vez da estreia solo de Frejat – também no Palco Mundo –, quando fez o primeiro show da turnê O Amor É Quente, uma espécie de prévia de Tudo Se Transforma, com hits de Tim Maia, Gilberto Gil, Rita Lee, Caetano Veloso, Os Paralamas do Sucesso e Titãs esquentando o repertório próprio. O exercício de intérprete da obra dos outros fora inaugurado antes ainda, em 2010, com a turnê A Tal Felicidade. “Eu amplio esse conceito”, Frejat explica. “As músicas de outros mudam, mas meus sucessos eu não posso abandonar, porque o público quer ouvir.” Instantaneamente, me vem à cabeça uma conversa com Eric Burdon, do The Animals, em meados dos anos 1990, em que ele reclamava de ter que cantar “The House of the Rising Sun” (um clássico do folk cuja versão mais famosa é a da banda britânica) em toda apresentação. Frejat não tem o menor problema com isso, e ainda tenta satisfazer as expectativas do público fielmente. “Quando você foi para o estúdio, você trabalhou muito para chegar naquele resultado. A não ser que você não goste desse resultado, não vejo muita obrigação de ter que mudar o arranjo para ao vivo”, ele opina. “Eu acho que seria extremamente frustrante você ir a um show pra assistir a uma coisa e, quando chega na hora, porra, aquele solo ou arranjo que é supermarcante não está lá. É lógico que não precisa ficar preso àquilo como algo imutável, mas certas referências são fundamentais. Por exemplo, o solo de ‘Bete Balanço’ tem duas partes. A primeira é sempre igual, mas a segunda é um improviso. Todo dia, ela é um improviso. Não pode ser diferente, não é para ser diferente. Como público, eu também não gostaria que fosse diferente.”O outro show que ele apresenta atualmente é bem mais intimista. Frejat – Voz e Violão existe desde 2015 e traz apenas composições dele e de seus parceiros, com a exceção de dois clássicos: “Trocando em Miúdos”, de Chico Buarque e Francis Hime, e “Carpinteiro do Universo”, de Marcelo Nova e Raul Seixas. Ele toca sucessos solo em uma apresentação que acontece exclusivamente em teatros. “Eu adoro tocar em teatro, tanto com a banda quanto com violão e voz, porque o som de teatro normalmente é bom. A qualidade cênica é indiscutível. Só que, com a banda, o público reclama que não consegue dançar. Eu entendo que tem esse inconveniente para eles. Para mim, não tem nenhum. É um lugar muito sólido no sentido de você estar em um local que é feito para se apresentar. Enquanto que, às vezes, nego enfia um palco em qualquer lugar e você precisa se virar, né?”, Frejat desabafa. Ele, contudo, revela os riscos: “[Em Frejat – Voz e Violão], estou mais vulnerável, porque é muito mais delicado. Qualquer erro, qualquer desconcentração musical pode me levar a esquecer a letra. E se eu esqueço a letra posso errar o acorde. Não vai ter ninguém para salvar, não tem ninguém acertando do meu lado para ficar menos errado. Tá tudo errado! [Risos] Ao mesmo tempo, tem esse poder de que, quando você faz uma coisa, você vai do mínimo ao máximo e está tudo nas suas mãos. As pessoas estão sendo conduzidas absolutamente por você. Não tem mais nada ali para elas prestarem atenção. Tem esse misto de fragilidade e de poder absoluto.”
A letra (e o título) de “Tudo Se Transforma”, canção que batizou a turnê atual de Frejat com uma banda de apoio, diz muito a respeito da vida que o artista tem levado recentemente, embora ele garanta que isso não passa de uma grande coincidência. “Foi meio previsão do futuro”, brinca. “Quando comecei a fazer a música, eu não estava pensando na minha saída do Barão. Na verdade, a letra veio de uma sugestão de Serginho Serra. Ele, Maurício Barros e eu fomos trabalhando-a até ficar assim. Temporalmente, ela acabou adequada àquele momento, mas não foi nenhuma intenção minha. Coincidiu. Eu poderia ter sido mais maquiavélico, mas não fui [risos].” A decisão de deixar a banda que ajudou a fundar junto aos amigos Guto Goffi, Maurício Barros e Dé em outubro de 1981 já havia sido tomada antes. “Foi no início de 2016, quando falei para a banda que não queria continuar”, Frejat revela. Ainda assim, “Tudo Se Transforma” anuncia uma virada, assim como foi a excelente “Amor pra Recomeçar”, faixa que deu o título ao álbum de estreia solo de Frejat, lançado em 2001 e o que mais vendeu até hoje. “Elas têm uma qualidade em comum porque trazem uma mensagem positiva sem serem cagadoras de regra. Senão, você vira aquela coisa piegas de livro de autoajuda, o que é ridículo”, ele explica. “De uma certa maneira, alimentam uma esperança, mas não são ‘Vamos todos ser lindinhos, felizes, o mundo é do caralho…’ O mundo é do caralho porra nenhuma! ‘Amanheceu outra vez, estou pronto para encarar a fúria dos dias.’ O pau tá comendo, mas eu estou a fim de encarar, porque eu quero viver”, esbraveja, reforçando a reputação de “boca-suja”. A ideia de lançar-se na carreira paralela ao Barão Vermelho era antiga. Sua experiência como compositor já estava mais do que comprovada. Quando Cazuza deixou o Barão Vermelho, em julho de 1985, Frejat assumiu os vocais e se deu muito bem nessa posição. No entanto, a decisão do voo solo veio depois de uma vivência como produtor. Inocentes, quarto álbum da pioneira banda brasileira de punk, lançado em 1989, marcou a estreia de Frejat nessa função. “Foi complicado em alguns momentos, mas foi muito bacana por outro lado”, recorda. O primeiro desses momentos aconteceu com Tonhão, o então baterista. “Você vai para o estúdio acostumado a gravar com clique, com referência, e pega um baterista que vem de uma banda punk. Ele não vai tocar com clique. Não vai nem querer saber dessa porra. Eu, como um cara que sabia que isso não seria fundamental, tentei viabilizar da melhor maneira sem o clique, porque isso tiraria a espontaneidade dele. Eu ia estragar a banda”, Frejat explica. “Na verdade, o produtor tem que deixar o artista o mais confortável possível para que ele possa produzir melhor. Acho que esse é o primeiro objetivo. A outra missão é chamar o artista para o que ele tem de melhor. E eu acho que consegui uma cumplicidade da banda toda desde o primeiro momento”, diz, afirmando que “eles nunca tinham tido um disco tão legal”. “Mas teve essa resistência, porque, por mais que eu não estivesse forçando ninguém a trabalhar, existia um mínimo de rigor técnico necessário.” O álbum foi o que mais aproximou os Inocentes do mainstream, principalmente pela vontade de Frejat de tirá-los do gueto punk e torná-los uma banda de rock – nos moldes do BRock que ele conhecia tão bem.

As produções continuaram. Frejat fez uma seleção de primeira, colocando gente como Cássia Eller, Chico Science & Nação Zumbi e Skank em Rei – Roberto & Erasmo, um tributo à maior dupla da Jovem Guarda, lançado em 1995. No mesmo ano, também cuidou da produção do primeiro álbum da excelente e malfadada banda recifense Jorge Cabeleira e o Dia em Que Todos Seremos Inúteis. “Rolou um estalo, justamente porque avaliei que eu tinha reunido essa experiência toda”, ele conta. “Eu era o cara que realmente atuava como um dos produtores do Barão, realmente ficava com a mão na massa, era o primeiro a chegar e o último a sair. E ainda tinha produzido esses discos para outros artistas, ou seja, eu já sabia lidar com essa coisa de você chegar e ter uma porrada de músico para conduzir, né?”
Atualmente, a posição de produtor levou Frejat ao primeiro álbum de Serginho Trombone, que está em fase de finalização. “A primeira coisa que Serginho gravou com o Barão foi em 1987. Ele fez um arranjo para um blues chamado ‘Quem Me Olha Só’, do álbum Rock’n Geral, e gravou um solo de trombone na música ‘Copacabana’. Dali em diante, virou nosso grande parceiro sempre que precisávamos de arranjos de metais. Ele fez alguns que são clássicos, como o de ‘Vem Quente Que Eu Estou Fervendo’ e o de ‘Puro Êxtase’. Nossa relação fortaleceu com o tempo e eu cobrava, dizia que ele tinha que fazer um disco dele por causa de muita gente estar fazendo e vendendo um som que ele construiu. Só que ele está vivo, e está aqui, parado em casa.” É um disco fundamentalmente instrumental e Frejat não esconde a felicidade de travar contato com antigos músicos de estúdio, pelos quais tem muita consideração. “Passou por aqui a alta elite – a elite musical brasileira em termos de instrumentistas: Jamil Joanes, Paulo César Barros, Paulo Braga, Renato Massa, Jorjão Barreto… Estou falando aqui de base e tal. Fora o pessoal dos metais. Serginho é um cara muito importante e muito respeitado por todos eles”, empolga-se.
Aos 55 anos, Frejat mantém um sorriso moleque, de quem está prestes a fazer piada. Ao mesmo tempo, poucos músicos do rock de sua geração são tão centrados e com uma visão tão objetiva quanto a dele. O documentário dirigido por Mini Kerti, Barão Vermelho, Por Que a Gente É Assim? , deixa isso claro, mas não tece conjecturas. “É uma coisa mesmo de educação, de personalidade”, Frejat diz, pensativo. “Já fiz muita merda [risos], mas fiz conscientemente. Não tem culpa moral, não. Sou muito focado num sentido: se eu preciso dormir, eu vou deitar. Se eu não dormir, vou ficar calado, eu não vou ficar conversando com ninguém. Sou muito disciplinado nessa coisa de conservar minha voz para os shows. Acho que eu sou muito objetivo em relação ao que quero fazer. Eu não fico muito: ‘Ai, meu Deus do céu, é isso? Não é isso? Ai, não sei se eu não vou conseguir por causa de não sei quem…’ Não tem isso. Se as coisas não acontecem, não acontecem, e as causas estão ali. A gente tem obstáculos pela vida. Naquele documentário, você já vê uma porrada de obstáculos, mas eu sempre fui muito focado em aonde eu queria chegar com o trabalho – no sentido do sucesso do trabalho, mas não do sucesso para virar um popstar, e sim o sucesso da música. Não queria ser uma pessoa famosa, pública. O fato de você ter uma música bastante executada te põe nessa posição, mas eu não tenho nenhum outro objetivo que não seja a música”, crava, acrescentando que nunca se viu como um político, por exemplo. “Não quero, sabe, cargo em conselho diretor de porra nenhuma, apesar de até ser parte de alguns grupos de atuação.” Junto a músicos como Ivan Lins, Fernanda Abreu e Leo Jaime, Frejat faz parte do GAP, o Grupo de Ação Parlamentar Pró-Música, que defende os direitos da classe musical, levando ao Congresso Nacional questões que envolvem streaming, direito autoral e até o restabelecimento da educação musical no ensino público. Ele faz questão de dizer que esse é um trabalho suprapartidário. “Não quero entrar nessa questão polarizada aí de hoje, porque é um assunto que às vezes está dificultando conversas entre amigos”, Frejat reclama. “Quando sei que eu e alguma pessoa temos uma opinião muito diferente, não falamos sobre política, porque sei que, se a gente falar, vai ter briga. E eu acho que, muitas vezes, tem pessoas que atacam a classe artística por causa de posições políticas que alguns artistas defendem. Atacam a classe artística como um todo, porque acham que ela como um todo tem aquela posição. Mas quando tratamos de assuntos da classe artística, aí sim esses assuntos são da classe. Não têm nada a ver com a política partidária.”
Companheiros
Frejat (à dir.) construindo o BRock com George Israel (à esq.) e Nando Reis

















Frejat é do time que consegue respeitar a obra de um artista que não mereça lá tanto respeito quando se trata de suas posições, citando o quanto ficou chocado ao assistir The End of the Century: The Story of the Ramones, documentário sem firulas sobre as personas por trás de uma das maiores bandas punk de todos os tempos. “Cheguei num hotel às 6h, morto de cansaço, liguei a televisão, e estava passando. Não consegui dormir enquanto aquilo não terminou. O que mais me impressionou foi que aquela era uma banda que não poderia ter sobrevivido nem um mês com aquelas pessoas juntas em uma mesma sala”, analisa. “Ela deveria ter acabado por incompatibilidade de gênios, mas teve uma carreira longeva. Johnny Ramone era o cara mais reacionário que existia, e os Ramones não têm porra nenhuma que ver com aquele reacionarismo. Ainda assim, não perdi o respeito pela importância deles por causa disso”, conta. “Acho que se a arte e a política forem cruzar caminhos, isso tem que ser muito bem feito, porque senão as duas saem prejudicadas.”
Em um rápido passeio pelo estúdio, seja na sala de gravação onde estão amontoados amplificadores de vários tipos e idades, na sala de controle, onde CDs e DVDs preenchem os espaços, seja no escritório, que abriga um belo acervo de livros e biografias musicais, fica claro que, mais do que guitarrista ou cantor, Roberto Frejat é um apaixonado pela música em todos os seus aspectos. “Desde sempre”, ele se orgulha e se lembra do primeiro disco que comprou, Rubber Soul (1965), dos Beatles, ainda em versão monaural. O número “66” escrito na capa revela a data da aquisição. Frejat tinha 4 anos, então. “Lembro-me de entrar na galeria das lojas de discos que havia no Flamengo, que era o bairro onde eu morava. No Largo do Machado tinha três lojas de discos. Olha como o mundo mudou – três lojas de discos em uma galeria só. Eu entrei e estava tocando ‘Ob-La-Di, Ob-La-Da’ no alto-falante do som ambiente da galeria. Eu já sabia que o disco dos Beatles estava pra sair, porque eu acompanhava, ouvia o programa do Big Boy”, ele conta, citando o famoso radialista carioca que era referência para os aficionados por rock em uma era pré-internet. “Já sabia que era uma música nova, porque não estava em nenhum álbum que eu tinha, mas saí frustrado porque ela só existia em compacto ainda.” A partir de então, era fácil dar presentes ao pequeno connoisseur musical, que fazia listas de Natal e aniversário. Aos 10 anos, Frejat começou a aprender violão. “Peguei um professor péssimo, muito careta, que queria me ensinar a ler música, tocar umas coisas nas quais eu não tinha o menor interesse: o tema do Love Story, tema de O Poderoso Chefão…”, ele ri. “Porra! Você tem 10 anos e gosta de rock, a última coisa que você quer ouvir é ‘Love Story’. Abandonei o instrumento. Ficou lá o violão que meus pais me deram de aniversário.” Aos 14, veio a febre de querer tocar guitarra. “Mas, naquela época, você nunca começava aprendendo guitarra direto, porque o pai de ninguém daria uma guitarra de cara. Sempre daria um violão primeiro para ver que porra que ia dar essa merda aí [risos].” Desta vez, ele conseguiu um bom professor de violão, Luis Felipe, que ensinou a ele harmonia de música brasileira. “Foi um cara importante para mim, porque o que eu aprendi com ele serve até hoje”, revela. Logo ganhou a guitarra e passou a ter aulas com Kay Galifi, italiano naturalizado argentino que acabou se fixando no Rio de Janeiro. De 1967 a 1969, Galifi foi da banda de pop e rock psicodélico argentina Los Gatos – uma espécie de versão portenha de Os Incríveis. Na mesma época, Frejat começou a ir a shows. “Ia sozinho. O Rio de Janeiro era uma cidade em que você pegava um ônibus às 22h ou às 23h com 14 anos e não acontecia nada”, ele diz. “Eu vinha acompanhando a coisa do rock: Beatles, Grand Funk, Deep Purple, Santana… Aí, o rock virou progressivo: Yes, Genesis, Emerson Lake & Palmer… Essa coisa toda. Então, o Genesis veio ao Brasil e eu fui ver.” A boa impressão de ver uma banda gringa que soava exatamente como no disco só foi ofuscada quando assistiu aos Novos Baianos pouco tempo depois – uma epifania causada por uma razão inversa. “O álbum era muito pior do que o show que eu tinha visto, por causa da qualidade técnica dos discos no Brasil, especialmente em um disco que tinha uma coisa mais pesada, como era o caso dos Novos Baianos ao vivo naquele momento, quando estavam com o Caia na Estrada e Perigas Ver”, Frejat recorda. “Era uma coisa muito mais visceral, forte e intensa.” Para ele, Pepeu Gomes foi o responsável por mostrar a um jovem Frejat que a guitarra elétrica tinha um posto no Brasil. “Tipo eu sou guitarrista. ‘Ah, mas guitarra é um instrumento do rock, música estrangeira.’ De repente, você vê os Novos Baianos e fala: ‘Ah, cabe, sim, cabe na música brasileira, tem lugar para ela aqui’.”
Desde então veio a convicção de que o rock brasileiro, cantado em português, seria possível. “Eu acho que um grande desafio do rock brasileiro é fazer letras em português, porque o português é muito mais difícil para escrever”, reflete. “Eu costumo dizer assim: Renato Russo poderia ser um paralelo de Morrissey em português, só que ser Morrissey em português é muito mais difícil, meu irmão. Como Raul Seixas e Zé Ramalho, de uma certa maneira, têm uma coisa do Bob Dylan em português, só que ser Dylan em português é muito mais difícil do que ser Dylan em inglês. O inglês é uma língua sintética, em meia frase você diz uma porrada de coisas. No português, tu vai dar uma volta do caralho para falar aquela merda, né? Então, eu acho que é muito importante valorizar quem canta em português e retrata o que a gente vive aqui.”
Pioneiro do BRock com o Barão Vermelho, Frejat não gosta da reclamação nostálgica de que nos anos 1980, sim, a música era boa. “Toda geração tem seu discurso, e não podemos achar que eles vão vir com o discurso deles e vamos achar sensacional, porque, porra, é outra geração que está falando, cara”, ele rebate, citando o talento de bandas como o Amarelo Manga, formada em 2015 e que tem entre os integrantes seu filho Rafael. “Acho que eles têm um jeito novo de fazer música. O jeito como compõem é completamente diferente do meu. Eu gosto. Acho que são, dentro da geração deles, uma banda representativa. Ainda não tiveram esse tipo de reconhecimento e creio que vão ter que trabalhar muito pra isso, assim como fez O Terno, que é uma banda de que eu gosto bastante. Ela tem o [
Tim Bernardes] filho do Maurício Pereira, brilhante companheiro da minha geração.” Frejat ainda se lembra de The Baggios, de Sergipe e Vera Loca, do Rio Grande do Sul, como bons exemplos. “Essa garotada cutuca. Você ouve e fala: ‘Porra, que música! Eu gostaria de ter feito essa música’. Aí, por causa dessa cutucada, num outro dia, você está ali, empenhado em fazer uma puta de uma música. Acho isso produtivo.”



Sucesso Alheio
Com arranjos a milhas de distância do rock, dois hits de Frejat vão longe, e ele fica contente com isso
“Eu não posso falar de boa música ou de má música. Não existe esse conceito. Existe o que nego gosta e o que não gosta.” Essa é a resposta de Frejat ao “xiita roqueiro”, aquele tipo que idolatra o gênero e despreza tudo que não se encaixa nele. Enquanto o guitarrista e vocalista se dedica a cantar os hits dos outros sobre o palco, outros artistas se utilizam das criações dele para garantir o coro animado em suas próprias performances. A forma como essas canções chegam aos ouvidos do público, porém, pode surpreender. Em 2003, já um dos maiores sucessos do Barão Vermelho, a canção “Por Você” ganhou uma versão em pagode, feita pelo conjunto carioca Sorriso Maroto. O grupo ganhou atenção nacional e a música chegou aos ouvidos de uma outra plateia. Dez anos depois, a dupla goiana de música sertaneja Jorge & Mateus incluiu “Amor pra Recomeçar” no álbum At the Royal Albert Hall – Live in London, gravado na mesma casa onde ocorreram shows históricos de Siouxsie and the Banshees e Adele. Na versão sertaneja, a música atingiu o 14º lugar na parada de execução em rádio. “É difícil você se identificar, porque aquilo não está retratando a sua realidade. E a música traz esse aspecto de identificação imediato quando você ouve a sua vida cantada ali”, Frejat explica. “Mas você consegue perceber o talento quando ouve. E tem outra coisa que eu acho que a gente é obrigado a reconhecer: sucesso alheio é algo indiscutível. Qualquer coisa que faça sucesso tem algum motivo para isso. Ninguém compra algo que seja uma porcaria sabendo que é uma porcaria. Se eu não consigo ver por que os outros gostam, problema meu.” Frejat diz que aprendeu muito cedo a não falar mal do “trabalho que não me bate”: “É uma questão de ética”.