terça-feira, 1 de setembro de 2015
Insultos, dedos médios, garrafadas: relembre as vaias do Rock in Rio
por Leonardo Rodrigues
Autoproclamado o maior festival de música do mundo, o Rock in Rio é também superlativo quando o assunto são as vaias. Em 30 anos de história, foram vários os casos em que artistas e público não bateram, a maioria deles nas três primeiras edições.
A ideia que formatou o festival, a de misturar ritmos e estilos, precisou ser azeitada ao poucos e trouxe uma clara lição: artistas diferentes precisam ser escalados em dias diferentes.
Com mais critério a partir de 2011, o Rock in Rio praticamente extinguiu esse tipo de episódio. Mesmo com a proposta atual de usar um palco, o Sunset, justamente para promover encontros musicais inusitados.
Nesse espaço, por exemplo, já brilharam Mike Patton ao lado da orquestra sinfônica de Heliópolis, e Zé Ramalho em companhia do Sepultura. Nada que lembre as bravatas trocadas de outrora.
"Acho que o produtor cultural tem que dar 20% do que o povo quer e 80% do que ele precisa", disse o músico e produtor Zé Ricardo, diretor artístico do palco Sunset.
"Para ter sucesso, é preciso buscar credibilidade. O que tenho percebido é que as pessoas são fãs e confiam no Sunset. Elas aprenderam que estamos fazendo algo para ousar."
Se hoje as ousadias são recebidas com aplausos, no passado elas já renderam dedos em riste, xingamentos mútuos e até uma tempestade de garrafas plásticas.
A seguir as quatro maiores vaias proferidas no Rock in Rio e foi atrás de seus personagens. Em comum, a percepção de que, parafraseando Erasmo Carlos, uma das vítimas, é preciso saber viver com os nichos.
Kid Abelha (1985)
A banda da vocalista Paula Toller estreou no Rock in Rio abrindo o quinto dia do festival, que tinha como grandes atrações o Scorpions e o AC/DC. A new wave à brasileira do grupo, sempre marcado pelo saxofone de George Israel, não agradou. "Muito obrigado, vocês são o máximo!", "agradeceu" Paula, com um sarcasmo à flor da pele, ao encerrar a apresentação. Momentos antes, durante o hit "Pintura Íntima", ela perdeu a paciência e chegou a mostrar o dedo do meio para o público.
"É meio estranho. Se você está se apresentando e o pessoal não está gostando, então por que estar lá? Sai, vai tomar um negócio. Mas é normal também.
Erasmo Carlos (1985)
O Tremendão tinha um sonho ainda vívido nos anos 1980: usar da música para unir o mundo. O devaneio hippie, no entanto, foi sepultado logo em 11 de janeiro de 1985, o primeiro dia da primeira edição do Rock in Rio. Os headliners eram Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Já ensaiadas no show anterior, de Ney Matogrosso, as vaias tomaram conta quando o ícone da jovem guarda apareceu. Justo ele, que preparara especialmente para a ocasião uma indumentária cintilante, feita de "vidrinhos e paetês", como a de um guerreiro do metal.
"Naquela época não havia informação. Ninguém sabia que existiam tribos. Para a gente, rock and roll era uma coisa só. O Rock in Rio foi um divisor de águas. Foi quando as tribos se revelaram", contou Erasmo.
Lobão (1991)
Era a grande a expectativa em torno do show do cantor no segundo Rock in Rio, o único realizado no estádio do Maracanã. Afinal, ele havia arrebentado no Hollywood Rock um ano antes. Segundo Lobão, a ideia de se apresentar no dia do metal, antes de Megadeth, Judas Priest e Guns N' Roses, fora dele mesmo. Assim como convidar a bateria da Mangueira. Tudo para provocar o roqueiro padrão brasileiro e seu gosto por um "rock chulé e de baixo teor". O resultado não foi nada menos do que desastroso.
"Ah, eu adorei. Mandei todo mundo tomar no c*. P****! O rock brasileiro começou a declinar no Rock in Rio 1. Neguinho organiza milimetricamente a coisa para você se f****. Você toca de tarde, com 10% do palco, 10% da luz e do som dos gringos. E o cara ainda não cumpriu o contrato. Quando eu cheguei, tinha um palco menor do que o combinado. Isso não era para acontecer. Eu sabia que estava com o melhor show do festival."
Carlinhos Brown (2001)
Quer queira, quer não, Carlinhos Brown nunca será esquecido pelo dia em que ficou preso no corredor polonês de garrafinhas d'água do Rock in Rio 3. Nem era o dia do metal, mas o de Papa Roach, Oasis e Guns N'Roses. Não houve jeito. Brown cantava (ou tentava) "A Namorada" quando desceu do palco. Ele foi tão furiosamente alvejado pelos roqueiros que talvez tenha reescrito, sem perceber, o episódio da "Noite das Garrafadas", do Brasil Império. "Não adianta gostar de nada quando não tem juízo, quando é ignorante, quando não pensa", discursou, entrincheirado.
"Acho que eles precisavam de alguém para jogar alguma coisa. Precisavam se expressar. Você tem vários adolescentes ali, que antes de chegar passaram numa avenida onde tudo é Nova York. Quando eles veem uma coisa extremamente brasileira, talvez eles reneguem dessa forma", disse Brown.
A banda da vocalista Paula Toller estreou no Rock in Rio abrindo o quinto dia do festival, que tinha como grandes atrações o Scorpions e o AC/DC. A new wave à brasileira do grupo, sempre marcado pelo saxofone de George Israel, não agradou. "Muito obrigado, vocês são o máximo!", "agradeceu" Paula, com um sarcasmo à flor da pele, ao encerrar a apresentação. Momentos antes, durante o hit "Pintura Íntima", ela perdeu a paciência e chegou a mostrar o dedo do meio para o público.
O Tremendão tinha um sonho ainda vívido nos anos 1980: usar da música para unir o mundo. O devaneio hippie, no entanto, foi sepultado logo em 11 de janeiro de 1985, o primeiro dia da primeira edição do Rock in Rio. Os headliners eram Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Já ensaiadas no show anterior, de Ney Matogrosso, as vaias tomaram conta quando o ícone da jovem guarda apareceu. Justo ele, que preparara especialmente para a ocasião uma indumentária cintilante, feita de "vidrinhos e paetês", como a de um guerreiro do metal.
Era a grande a expectativa em torno do show do cantor no segundo Rock in Rio, o único realizado no estádio do Maracanã. Afinal, ele havia arrebentado no Hollywood Rock um ano antes. Segundo Lobão, a ideia de se apresentar no dia do metal, antes de Megadeth, Judas Priest e Guns N' Roses, fora dele mesmo. Assim como convidar a bateria da Mangueira. Tudo para provocar o roqueiro padrão brasileiro e seu gosto por um "rock chulé e de baixo teor". O resultado não foi nada menos do que desastroso.
Quer queira, quer não, Carlinhos Brown nunca será esquecido pelo dia em que ficou preso no corredor polonês de garrafinhas d'água do Rock in Rio 3. Nem era o dia do metal, mas o de Papa Roach, Oasis e Guns N'Roses. Não houve jeito. Brown cantava (ou tentava) "A Namorada" quando desceu do palco. Ele foi tão furiosamente alvejado pelos roqueiros que talvez tenha reescrito, sem perceber, o episódio da "Noite das Garrafadas", do Brasil Império. "Não adianta gostar de nada quando não tem juízo, quando é ignorante, quando não pensa", discursou, entrincheirado.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
Cena Independente – O buraco é mais embaixo
Muito se comenta sobre a cena musical independente no Brasil, em São Paulo mais especificamente, e sua fragilidade e até mesmo suposta existência. Procura-se um culpado a quem atribuir o fracasso de público na maioria esmagadora dos eventos, os prejuízos acumulados pelos espaços culturais dispostos a receber os mesmos sem se prostituir, dedicando seu espaço às bandas covers ou extorquir seu público com preços abusivos, e o pequeno alcance dos esforços de divulgação dos trabalhos das bandas.
Um ponto de partida interessante seria perguntar por que eventos com bandas internacionais e preços exorbitantes atraem um público grande, independente do dia da semana, horário ou local, enquanto as bandas nacionais, a preços baixos, quando não eventos gratuitos, tocam para meia dúzia de pobres diabos? Existe uma resposta um tanto óbvia: estrutura. Ou falta dela.
Quando você vai a um show internacional geralmente se depara com músicos que se dedicaram ao seu instrumento por vários anos (lembrando que muito provavelmente tiveram aulas de música nas escolas durante sua juventude e que lhes proporcionou o contato e identificação com essa forma de arte ainda bastante jovem), tocando em equipamentos de excelente qualidade (aos quais tem acesso a preço justo ou ao menos acessível em seus países de origem) e que você provavelmente já teve a chance de conferir material gravado e se familiarizar, conhecendo as canções e cantando junto as letras. E é essa a sensação que te faz pagar pra assistir a essa apresentação. Aí está o primeiro ponto a ser considerado. Ou seja, o diferencial é qualidade de equipamento (lembra-se daquela frase “parece energia, mas é só distorção”? Cabe perfeitamente nesse caso) e envolvimento pessoal com a música, certo?
O músico brasileiro em geral “descobre” a música mais tarde, no fim da adolescência, e quando decide se dedicar a um instrumento precisa conciliar seu aprendizado com seus estudos, trabalho e família. Se vencer essa primeira barreira e se torna competente esbarra no próximo empecilho, que é a dificuldade de contar com um equipamento decente. Se te revoltou saber a diferença de preço de um mesmo videogame nos EUA e aqui, procure saber o abismo entre os preços de instrumentos musicais de ponta nesses dois países. Avancemos para a próxima questão, a falta de empatia com o público.
Se a cena nacional não rende lucro, as bandas encontram imensa dificuldade em gravar e disseminar seu material. Seus integrantes precisam ter empregos para poder honrar seus compromissos do dia-a-dia e ainda bancar gravações, ensaios, instrumentos, equipamentos, merchandising, seus deslocamentos até os locais dos shows, além das despesas com alimentação e hospedagem. São raras as bandas que conseguem superar todas essas dificuldades e chegar ao conhecimento do público, se fazer relevante. O que geralmente acontece é o seguinte: o público não conhece, se não conhece não paga pra ver, se não paga, não existe lucro. Sem lucro não existe material. Sem material o público não tem como conhecer o trabalho. E assim segue…
Porém o buraco é mais embaixo. Somos vítimas de uma sociedade egoísta, voltada apenas ao próprio bem-estar. Talvez nem isso. Talvez voltada apenas à própria vaidade. Fomos convencidos pela mídia de que ser brasileiro é ser esperto, levar vantagem, dar um jeitinho. Que fazer a coisa certa é ser bobo. Fomos convencidos por nossos governantes que nossa corrupção ficará impune. Destituídos de qualquer sentimento de patriotismo ou valorização do produto nacional, uma vez que passamos a vida cercados por inimigos loucos pra se aproveitar do nosso menor vacilo.
esconfiamos que o vizinho possa fazer a mesma coisa que faríamos no lugar dele. Apodrecemos e nos acovardamos sob o medo de nosso próprio comportamento. A cadeia de lucro que deveria nos trazer evolução acaba no primeiro que coloca a mão em qualquer migalha que seja. Não acredita, não investe. E no dia em que uma banda se recusa a tocar por achar a situação injusta, se livra dela, sob acusações e abre espaço pra outra, em um estágio menor de evolução, que na busca por seu espaço aceita qualquer humilhação para mostrar sua arte. O nível vai caindo, o público vai se diluindo, as bandas vão ficando de lado, seus integrantes vão desanimando… Já deixaram de lado suas famílias, seu descanso tantas e tantas vezes. Equilibra nas pontas dos dedos trabalho, estudo, ensaios, viagens e de repente se vêem assim, desrespeitados. Suas mensagens e desejos de mudança gritados a plenos pulmões não encontram ecos em ouvidos anestesiados pela ganância.
Não que as bandas sejam sempre vítimas nessa equação. Também carregam, claro, sua parcela de culpa. Quase sempre pela postura de pouco respeito para com público, com os outros músicos ou para com a organização dos eventos. Ainda resquício de nosso abandono aos valores morais, os constantes atrasos nas apresentações. Anuncia-se um evento em determinado horário que frequentemente começa com duas ou mais horas de atraso. Daí então sobem ao palco músicos embriagados, com seus instrumentos devidamente desafinados, cabos defeituosos causando toda a sorte de ruídos imagináveis, e dão início ao festival de microfonias e erros grotescos. Músicos esses que provavelmente já pediram emprestados palhetas, baquetas, correias ou qualquer outra coisa que seja possível esquecer antes de poder se apresentar e que, terminado seu show, pegam suas coisas, viram as costas e vão embora, sem prestigiar os companheiros a se apresentar na sequência.
Poucas coisas fizeram tanto mal ao músico brasileiro quanto a propaganda mentirosa do sexo, drogas e rock’n’roll. Como diria o Boka (RDP) no documentário Guidable, “tão pensando que é Rolling Stones?”. E o que dizer então dos autointitulados formadores de opinião, que vislumbram um talento divino para criar suas letras, sendo que não são capazes de perder(?) alguns poucos minutos lendo, coisa imprescindível a qualquer um que se atreva a escrever?
Nos leva então a mais um ponto chave dessa análise: o público. É bastante comum ouvir dos frequentadores dos eventos independentes sua pseudosuperioridade, sua diferenciação. Discursos inflamados, apontando o dedo em riste para a massa não pensante e influenciável, apreciadora dos estilos musicais da moda e da cultura mainstream. Engraçado pensar que esses que estão sendo julgados como inferiores parecem ter mais consciência de seu papel na cena musical da qual fazem parte do que seus juízes, uma vez que comparecem aos eventos, compram material de seus artistas favoritos, pagam para assistir aos shows e consomem dentro do ambiente, gerando receita que fortalece todas as partes dessa estrutura. Já nossos pequenos donos da verdade se contentam em ir até a porta dos shows e implorar para entrar sem pagar, pois não tem dinheiro suficiente. O que se perceberá em breve não ser verdade, assim que ele começar a consumir no bar. Ou na porta. Fica a pergunta: pra quem se está mentindo? Para o organizador que liberou sua entrada por pena ou pra você mesmo?
Não seria mais honesto pegar seu dinheiro e ir direto pro bar, já que não tem nenhum interesse em ser parte da cena musical independente além de parasitá-la? Quando iremos perceber que estamos todos ligados, que somos todos parte de algo maior e que as coisas só serão vantajosas pra um quando forem vantajosas para todos? Despertar essa consciência é a verdadeira função do ensino. Formar cidadãos cientes de seus direitos, deveres e importância social, capazes de ter uma postura crítica, de raciocínio lógico. E aqui surge mais um componente nessa sucessão de incompetências: o governo. O governo, que deveria focar na educação básica de qualidade para todos, mas prefere mascarar a realidade de desigualdade investindo em universidades federais, às quais só tem acesso alguns poucos afortunados, que puderam pagar por uma educação de qualidade durante sua vida escolar. Justamente aqueles que teriam condições de pagar por um ensino superior de qualidade. Enquanto isso, a maioria, que não tem essa mesma condição financeira, é quem se vê obrigado a pagar. Mas não basta apontar os problemas. Quais seriam então as formas para se quebrar esse círculo vicioso? Mudança de postura de todos que fazem parte da cena e, porquê não, da sociedade em geral.
A única maneira seria conscientizar as pessoas de que elas não são apenas frequentadoras de uma cena, mas que elas são a cena. Não são as bandas, nem as casas de show. As pessoas fazem a cena. Bandas e bares são apenas necessidades que essa cena demanda. A partir dessa mentalidade é possível visualizar dias melhores. Com as pessoas dispostas a fazer parte de algo, a contribuir para evolução delas mesmas enquanto cena. Passaríamos a assistir o desenvolvimento da cultura independente como nunca antes, pois à partir do momento em que os espaços começassem a obter lucro nos eventos, eles teriam a chance de investir numa melhor estrutura de palco e equipamentos, além de conforto ao público. Poderiam passar a remunerar as bandas que se apresentam, dando a estas a chance de também investir em instrumentos mais adequados, gravações mais profissionais e divulgação decente. E assim o público, sempre a pedra fundamental da cena, começaria a ter nos shows das bandas independentes nacionais a mesma sensação que tem nos shows internacionais, quando não maior, uma vez que se sentiria ainda mais integrado a tudo isso.
Soa utópico, mas a mim parece apenas o caminho mais lógico.
Artigo por Wagner Cyco, guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha.
Entrevista Dado Villa-Lobos (por Chico Castro Jr.)
"Na frente de 50 mil, Renato provocava ainda mais"
A poucos dias de completar 50 anos, Dado Villa-Lobos passa a vida a limpo em seu livro Memórias de um Legionário. Escrito a seis mãos - com o auxílio dos historiadores Felipe Demier e Romulo Mattos -, é livro para se ler de um fôlego só, especialmente se o leitor for fã da Legião Urbana ou se, no mínimo, tiver vivido aqueles loucos anos entre as décadas de 1980 e 90. Porque, mais do que o relato do ex-guitarrista da Legião Urbana, Memórias de um Legionário é o relato de uma geração que arrombou as portas da indústria fonográfica, deu um chega pra lá (momentâneo, claro) na aristocracia estabelecida da MPB e botou casas de show e estádios de cabeça pra baixo com multidões enlouquecidas de jovens. Testemunho de alguém que estava no olho desse furacão, o livro, na verdade, tem seu maior mérito no fato de ser o relato em primeira pessoa dos bastidores da Legião Urbana, detalhando os encontros que levaram à formação da banda, as primeiras apresentações, a chegada ao eixo Rio - SP, a contratação pela EMI, as gravações de todos os discos, o estouro, as turnês pelo país. Estão aqui também os detalhes do relacionamento interno da banda, sujeita aos altos e baixos emocionais de Renato Russo e até a alguns ataques de estrelismo do baterista Marcelo Bonfá. De quebra, a infância e adolescência deste filho de embaixador, que costumava roubar Mobiletes nas ruas de Paris.
Qual era sua intenção ao escrever suas memórias?
Era uma questão de juntar os cacos. Estou chegando aos 50 anos (no dia 29) e há uma série de questões em relação à Legião. O Renato se foi de forma trágica e repentina, a questão dos herdeiros meio confusa. O livro na verdade foi algo que eu percebi que poderia juntar os cacos, todos os fragmentos numa coisa só, e assim ter uma percepção mais exata do que de fato aconteceu e repercute até hoje. Foi uma experiência muito positiva. Gostei do resultado. É um documento com relatos que estendem por 30 anos, com uma contextualização histórica, social, política e cultural.
O livro meio que aclara coisas que na época ficaram meio obscuras, como a saída do (baixista) Negrete e o quebra-quebra no Estádio Mané Garrincha (em 1988). Dar sua versão desses episódios foi outra razão para o livro?
Acho que sim, tudo foi meio dentro de uma sincronicidade. Eu estava querendo me distanciar da história toda. Mas aí o herdeiro (Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo) montou um site que estava transformando a história de forma stalinista, mexendo, tirando eu e o Bonfá da jogada e botando outros. O livro vem justamente trazer luz em cima dessa história. O cara que estava ali dentro e hoje está aqui falando para explicar e dizer 'essa banda era assim, a gente era amigo assim e funcionava assim, nossa dinâmica era essa, esse é meu ponto de vista'. Porque todas as histórias já foram ditas, mas por terceiros, como Arthur Dapieve (Renato Russo: O Trovador Solitário), Paulo Marchetti (O Diário da Turma 1979- 1986: A História do Rock de Brasília) e outros, que foram citados.
Imagino que tudo mudou pra vocês depois do quebra-quebra no Mané Garrincha. Nenhuma outra banda antes ou depois causou reações tão extremadas de amor e ódio. Por que você acha que a Legião gerava esse climão?
Não tinha como não nos marcar. A gente ficou tão grande que tava tocando em estádio de futebol! E aquele show era na nossa casa. Apesar de morar no Rio há 30 anos, ainda considero Brasília minha casa. Mas esse lance das reações eu credito ao Renato. Era ele o provocador. Em Brasília, a gente tava achando que estava tudo certo, focados em fazer o show da melhor maneira possivel, mas realmente perdemos o controle. Não existem mais artistas como ele. Na frente de 50 mil pessoas, Renato provocava e peitava ainda mais. Digamos que ele jogava gasolina na fogueira. Mas assim era a Legião.
Como está a questão sobre seus direitos e os de Bonfá sobre a Legião?
A gente ganhou, depois de dez anos de processo, o direito de poder 'ser' a Legião. (Risos) É, é um negocio desses. Sabe aquele show com Wagner Moura, que encarou aquele projeto de uma forma incrível? A gente não tinha a liberação (para poder tocar) até uns cinco minutos antes do programa ir ao ar (na MTV). Ali pra mim chegou, foi a última vez. Talvez possamos, algum dia, com uma produtora grande envolvida, excursionar e tal - mas como celebração, a ideia não é se juntar de novo - com artistas novos no palco. Agora, o menino ainda é dono da marca Legião Urbana. Isso é outra questão. Como ainda mantenho minhas relações com meu passado punk rock, eu não acredito em marca. Eu acredito em música, eu acredito no rock e na atitude. Esse negócio da marca sem o Dado e sem o Bonfá não vale nada. Caguei pra marca.
Como se sentiu quando o livro ficou pronto, esse processo de passar a própria vida a limpo? Mudou algo em você?
Sim, claro. O fato de relembrar tudo... Você fica em cima daquilo por tanto tempo. O processo foi esse, né, como se fosse uma autocura, uma terapia. Nesse sentido, foi bem importante. Até relembrei coisas que não lembrava mais, e os caras (Felipe e Romulo) puxavam certos acontecimentos que encadeavam em outros. Foi bem doido. Foram dois anos nesse processo.
Divertido aquele episódio do Bonfá com Raul Seixas no banheiro de um hotel em 1984. O que mais lembra dele?
Cara, que louco que o Raul era. E naquela época ele já era aquela figura antológica, né? Ficamos no mesmo hotel no Rio de Janeiro. Via sempre aquele cara pelo corredor, tomado pelo éter (que Raul costumava inalar). Ele exalava éter, mas era um mito, e de certa forma, uma personalidade incrível. Depois que eu vi o documentário do Walter Carvalho (Raul: O Início, o Fim e o Meio, 2012) é que eu fui lembrando dele. Cara, que louco!
Aqueles punks fazendo saudação nazista (durante a música Soldados) no Circo Troca de Segredos, logo no primeiro show da Legião em Salvador te marcou mesmo, né?
(Risos) Pois é, era um lugar bem precário e tinha aqueles caras, todos negros, fazendo saudação nazista. Eu pensei 'gente, que coisa louca, eles não sabem o que estão fazendo'. Isso era uma coisa que rolava no punk. Mas não era pra valer, era mais como uma provocação, uma lembrança para nunca mais acontecer.
Outro show marcante da Legião em Salvador foi o do lançamento de Que País É Esse (1988), na Concha Acústica.
Esse show na Concha foi punk também. Choveu e o palco ficou tomado pela água. Começamos a tomar choque e pra completar, Renato se jogou na poça e ficou se debatendo lá. Como sabemos, água e eletricidade não combinam, mas no final deu tudo certo. Lembro que depois ainda fui no show do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Egotrip (banda em que tocava Pedro Gil, filho de Gilberto Gil, morto pouco depois em um acidente de carro). O Paul Simon tava lá também.
Você cita a banda baiana Maria Bacana como uma de suas preferidas do seu selo, Rock It! O que foi que te chamou a atenção neles na época?
Eles eram pré-emocore, né? As canções eram canções mesmo, com melodias, nas letras tinha lua, primavera. Eram canções bem bonitas. Produzi com Tom Capone e o disco ficou ótimo, mas talvez estivesse antes do seu tempo. Aquela vibe, aquele formato ainda não estavam valendo naquela época. Mas era muito legal.
O que achou da liberação das biografias sem autorização pelo STF?
Meu livro é mais de memórias, lembranças, histórias. Mas sou um paladino defensor das biografias. Todas que li me enriqueceram muito em termos culturais e históricos, acho fabuloso o trabalho dos biógrafos. Li os livros do Garrincha, o Chega de Saudade, O Anjo Pornográfico (todos de Ruy Castro) o Roberto Carlos em Detalhes... Paulo César Araújo, o Fernando Morais, o Ruy Castro e outros são pessoas que dão suas vidas para escrever esse livros, não tem como ser contra. Acho que a questão é ter um selo de garantia aqui no Brasil. A partir do momento que existe um biógrafo que não cumpre com a verdade, ele não merece atenção. Esse é o grande temor: gente sem caráter se apropriando de histórias alheias.
Você parecia o mais equilibrado da banda, o mais tranquilo. Você atribui isso ao fato de ter descoberto ser diabético ainda criança?
A relação com a diabetes provocou em mim um senso de responsabilidade muito cedo, eu era um moleque de 11 anos e tinha que lidar com aquilo. Mas nem tanto. Renato dizia que eu era o presidente do 'Clube da Criança Junkie' de Brasília. Eu contrabalançava, mas na Legião eu era com certeza o cara que ficava entre o Bonfá e o Renato. Mas eu sou filho de diplomata, um contemporizador nato. Sempre costurando acordos, sempre era eu que buscava empresário, advogado, vamos abrir empresa, achar o contador. Eu era esse cara, que ergueu o mínimo de estrutura corporativa que a Legião tinha.
Parece que estamos no meio de uma onda neoconservadora, especialmente entre os jovens. Como você vê isso?
O Renato mesmo provavelmente ia estar achando um horror. Vivemos um momento tão reacionário com tanto conflito PSDB versus Dilma, essa disputa deu voz a uma legião de imbecis. Mas ao mesmo tempo, vivemos uma época de mais liberdade em ralação ao que se vivia em 82, quando começamos e havia uma ditadura institucionalizada. Agora é democracia, pode falar o que quiser, mas paradoxalmente vivemos um dos momentos mais intrigantes e reacionário que eu já vi. E você vê isso o tempo todo na TV, na rua. Mas eu não quero acreditar que somos assim. As pessoas estao assim. Na música, não se arriscam mais. Música nova é quase proibido. Se o Renato estivesse aqui, ele poderia estar falando algo a esse respeito, com a força que ele tinha.
O que achou dos filmes baseados na Legião, Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo?
Com o Somos Tão Jovens eu tinha uma relação pessoal (seu filho, Nicolau, faz o papel de Dado). Achei super bem contado. Brasília era aquilo ali: uma cidade grande no interior do pais com 20 anos. E mostra bem como aquilo tudo aconteceu. Mas também ficou meio infanto-juvenil, uma ótica meio Malhação, meio ingênua talvez, mas aquilo tudo aconteceu de fato. Quando eu vi, falei: 'Brasília, cara! Minha adolescência'. Já no Faroeste, o cara (o diretor René Sampaio) pisou muito na violência, ficou pouco sutil, muito duro, muito pesado. A música é mais clara do que aquilo, claro que tem um duelo, mas era um negócio mais sobre o Brasil rural e um retrato do país. Temos outras facetas que não só a violência.
Além do Estúdio do Dado (programa no canal Bis) , o que você tem feito? Planos para um álbum solo novo?
O Estúdio do Dado nós estreamos a segunda temporada. Tem a Zélia Duncan, o Dinho Ouro Preto. Vamos pensar numa terceira temporada. Minha vida gira em torno do meu estúdio, estou lançando o livro, tenho a Banda Pan Americana (com Toni Platão, Dé Palmeira e Charles Gavin), fizemos um disco de clássicos latino-americanos para tentar conectar o brasil com nossos vizinhos. Continuo fazendo shows e trilhas. Fiz agora a trilha do documentário Arquitetura Da Cor, da Beatriz Milhazes, que é incrível. Eu continuo. O estúdio é meu lugar de trabalho. Disco solo novo, ano que vem. Chegando aos 50, depois do livro, eu vou fazer um apanhado, uma colagem com a coisa do livro, as memórias. A ideia é fazer ano que vem, com participação de outras pessoas. Estou começando com o repertório e juntando os parceiros. Ah! No ano passado eu gravei uma versão em português para uma música do Gang of Four (banda pós-punk inglesa, grande influência para a Legião). Gravei e mandei para o Andy Gill (guitarrista, que participou do show com Wagner Moura). Deve sair ainda esse ano.
O "NHEENGATU" dos Titãs
Hérica Marmo e Luiz André Alzer falam sobre o último albúm dos Titãs.
Não consuma esse disco se tiver estômago fraco. “Nheengatu” é repleto de cenas fortes, impróprias para quem não encara as verdades de frente. Tem pedofilia. Tem fome, miséria, crack. Tem machista covarde que dá flores para a mulher, mas que se revela um monstro de ciúme possessivo. Tem bossais preconceituosos que espancam quem não segue suas cartilhas de costumes. Tem quem sobrevive em vez de viver e personagens de HQs que poderiam perfeitamente ter saído das redes sociais.
“Nheengatu” é uma crônica ácida do Brasil em carne viva, com as angústias e mazelas que estão bem aqui do nosso lado. Os Titãs, que se consagraram por cravar a unha na ferida e nunca tiveram pudor em virar do avesso temas incômodos, lançam seu 18º disco, mais críticos e atuais do que nunca. Dessa vez, em tempo real. Como Fardado, composta enquanto protestos e manifestações varriam o país afora: “Por que você não abaixa essa arma / O meu direito é seu dever / Por que você não usa essa farda / Pra servir e pra proteger”.
“Desde o começo, tínhamos vontade de fazer um instantâneo do tempo que a gente vive. Fardado foi diretamente inspirada na fotografia de uma adolescente parada na frente de uma tropa da PM com um cartaz escrito: ‘Fardado, você também é explorado'”, conta Sérgio Britto.
Nesse retrato comtemporâneo, em que elementos regionais ao som predominantemente pesado, também aparecem os que andam pelas ruas por outros motivos. Drogados e mendigos perambulam por endereços famosos de São Paulo em Mensageiro da Desgraça. A Letra junta os sem-teto de home com os excluídos da nossa história, os índios. "Vejo meus antepassados / vou vingar os meus irmãos / Os que são queimados / Enquanto dormem no chão".
Foi olhando para nossas origens, aliás, que os Titãs batizaram o disco. Nheengatu é uma lingua derivada do tupi-guarani, criada pelos jesuítas no século XVII para unir as tribos nativas do Brasil e os brancos recém-chegados. O contraponto está na capa, com a imagem da Torre de Babel, mito bíblico sobre a completa falta de comunicação entre os homens.
"Nheengatu define bem um disco que trata dos assuntos mais sensíveis no desenvolvimento da sociedade brasileira nos dias de hoje. Nossa civilidade, ética e moral estão nas letras deste CD", detalha Paulo Miklos, que se inspirou na música indígena para compor, em parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes, a ótima Cadáver sobre cadáver: "Retomamos esta referência que já está na canção 'Cabeça Dinossauro', de 1986, e que agora experimentamos com mais profundidade.
As 14 faixas do álbum formam uma sequência vigorosa, intensa, difícil de desacoplar uma da outra, que retrata bem a personalidade forte dos Titãs. Essa contundência fica latente em Pedofilia, assunto tabu na música brasileira, composta do ponto de vista da vítima. A letra é o próprio depoimento, envergonhado e indignado, um desabafo depois de sofrer nas mãos de seu algoz. A interpretação de Britto é primorosa e revela todas as nuances do crime. Suave e doce nos argumentos do pedófilo, nervosa e repulsiva quando a vítima cospe para fora a barbaridade que sofreu.
O disco vai também direto ao ponto de Quem são os animais?, que bate forte nas humilhações sofridas pelas minorias: "Te chamam de viado e vivem no passado / Te chamam de macaco e inventam o teu pecado". Já Flores para ela poderia ser uma tragédia das páginas policiais, do marido possessivo e descontrolado que se sente dono da própria mulher. A interpretação envolvente de Miklos vai crescendo e se com o avançar da música, enquanto a guitarra de Bellotto acompanha a tensão, culminando num solo que grita, berra, como um pedido de socorro.
A banda - que neste álbum volta a contar com Mario Fabre na bateria - também ataca o politicamente correto que patrulha opiniões e comportamentos. "Não pode fumar, não pode beber / Não pode xingar, não pode correr", reclama Britto em Não pode. A futilidade dos verborrágicos que não tem nada para dizer é tratada em Fala, Renata, assiada pelo trio Britto, Miklos e Bellotto - também autores da energica Eu me sinto bem.
A obsessão cega por uma religião que suga as crenças e o dinheiro do fiel dá as caras em Senhor. O sarcasmo crítico se traduz na estrofe “Querem meu dinheiro, querem meu salário / Um santo no espelho, uma sombra no armário”.
“Senhor foi inspirada também nessa vontade de fotografar o Brasil atual, em que a religião se mistura na política com resultados terríveis, como a manipulação e a exploração de fiéis, a resistência de bancadas religiosas em aceitar a discussão de pesquisas com células tronco, descriminalização do aborto... A canção usa o formato de uma oração ao contrário, com uma base punk bem titânica, que lembra coisas de nossos discos mais antigos”, explica Tony Bellotto, autor da música.
E se o álbum remete aos primórdios dos Titãs, flerta também com a história da música brasileira, numa colagem genial em Baião de dois. A composição de Miklos inicia com "O mundo é um moinho", de Cartola, e "A vida é um buraco", choro de Pixinguinha. Segue adiantes com o "Mundo me condena" de Noel Rosa, e "A vida me ultrapassa", verso de Rita Lee e Tom Zé. Até desembocar em "É só isso esse baião, e não tem mais nada não", inspirada em "Bim Bom", de João Gilberto.
O lado mais leve (mas não menos crítico) de "Nheengatu" vem do olhar sempre afiado de Branco Mello, em parcerias com o cartunista Angeli e o autor e diretor teatral Hugo Possolo, em República dos Bananas, e com o também dramaturgo e diretor Aderbal Freire-Filho, em Chegada ao Brasil (Terra à vista) – ambas assinadas ainda pelo guitarrista Emerson Villani.
"Angeli é o criador desses personagens que aparecem na música e um gênio dos quadrinhos. Trata-se de um retrato bem-humorado das diferentes figuras que habitam nossa República. Aderbal e Hugo são grandes artistas do teatro brasileiro. Fizemos essas músicas inicialmente para outros projetos, mas os temas se encaixaram com perfeição nesse trabalho. Um rock falando da chegada ao Brasil e outro sobre os tipos brasileiros que vivem por aqui", conta Branco.
É Branco que interpreta a única releitura do disco. Uma versão pesada para Canalha, clássico de Walter Franco, de 1979, cuja letra conversa bem com as outras faixas do disco. "Walter Franco sempre foi um compositor muito original, com referências variadas e que criou um estilo único. A canção é muito poderosa e continua atual, mesmo depois de tanto tempo", opina Bellotto.
"Nheengatu" tem homenagem. Tem influência da música indígena. Tem um pouco de baião, xaxado e samba. E tem muito rock'n'roll. A densidade e acidez das letras se complementam naturalmente na sonoridade do disco, ancorada no clássico trio guitarra-baixo-bateria. É Titãs em sua (melhor) forma e conteúdo. Sem nenhum pudor.
Hérica Marmo e Luiz André Alzer
Maio de 2014
Ouça no volume máximo:
https://www.youtube.com/watch?v=DTqrfv8ybkA&list=PLFocyBLGQJgpwPt6817zRE-M31Q-EkinC&index=1
Maio de 2014
Ouça no volume máximo:
https://www.youtube.com/watch?v=DTqrfv8ybkA&list=PLFocyBLGQJgpwPt6817zRE-M31Q-EkinC&index=1
quinta-feira, 16 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
1° trailer de "Eu Sou Carlos Imperial" traz Roberto, Erasmo e Toni Tornado
O filme "Eu Sou Carlos Imperial", documentário que conta a história do histórico produtor da música, TV e cinema brasileiros, ganhou seu primeiro trailer.
Além de trechos de filmes raros, o vídeo traz cenas de shows e depoimentos de parceiros como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, Toni Tornado, Paulo Silvino, entre outros.
Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o documentário mostra a ascenção de uma das figuras mais ímpares do showbusiness do Brasil, conhecido por descobrir talentos como Roberto Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal e Elis Regina.
Excêntrico, mulherengo e marqueteiro, Imperial era também apresentador de televisão e autor de grandes sucessos da década de 1960, como "A Praça", "Vem Quente que eu Estou Fervendo", "Mamãe Passou Açúcar em Mim" e "Nem vem que não tem".
O filme fez sua estreia nacional no festival "É Tudo Verdade".
Assista ao trailer:
O BRock no Rock in Rio 2015
Palco Mundo terá shows de Lulu Santos e Paralamas do Sucesso
O grupo se apresentará no mesmo dia em que Rod Stewart; o cantor toca na data em que Rihanna e Sam Smith sobem ao palco.Em novo anúncio feito na noite desta segunda-feira, 30, a organização do Rock in Rio confirmou as participações de Lulu Santos e Paralamas do Sucesso no festival. Lulu se apresentará na mesma data em que Rihanna e Sam Smith, no dia 26 de setembro, durante o segundo fim de semana da edição 2015.Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, no entanto, tocam uma semana antes, no dia 20 de setembro, mesmo dia que terá Rod Stewart como headliner. Ambas as atrações participaram da primeira edição do Rock in Rio, em 1985. O Paralamas voltou a se apresentar no festival em 2001, ao lado do Titãs. Lulu, por sua vez, fez uma aparição no show do Jota Quest, na edição de 2013, a mais recente no Brasil.
O festival acontecerá nos dias 18, 19, 20, 24, 25, 26 e 27 de setembro, na tradicional Cidade do Rock, no Rio de Janeiro. O line-up também contará com as apresentações de Mötley Crue, OneRepublic , Royal Blood, Katy Perry, System Of A Down, A-Ha, Queens of the Stone Age, Faith no More , Hollywood Vampires –supergrupo de Alice Cooper, Johnny Depp e Joe Perry (Aerosmith), além do emblemático retorno do Queen ao festival. Os ingressos começarão a ser vendidos em abril.
Rock in Rio 2015
18 de setembro (sexta-feira)
Palco Mundo
Palco Mundo
Especial 30 anos (Dinho Outro Preto, Paralamas do Sucesso, Erasmo Carlos, Frejat, Jota Quest, Andreas Kisser, Ney Matogrosso, Titãs, Blitz, entre outros)
Palco Sunset
Lenine com Nação Zumbi e Martin Fondse
Ira! com Tony Tornado e Rappin Hood
Dônica com Arthur Verocai
Homenagem a Cássia Éller
19 de setembro (sábado)
Palco Sunset
Angra com Dee Snider (Twisted Sister) e Doro Pesch
20 de setembro (domingo)
Palco Mundo
Lulu Santos
Palco Sunset
Baby do Brasil e convidados
Alice Caymmi com Eumir Deodato
24 de setembro (quinta-feira)
Palco Mundo
Palco Mundo
CPM 22
25 de setembro (sexta-feira)
Palco Sunset
Steve Vai com Camerata Florianópolis
Moonspell com Derrick Green (Sepultura)
The Heavy Metal All Star (André Moraes, André Abujamra, Constantine Maroulis)
Steve Vai com Camerata Florianópolis
Moonspell com Derrick Green (Sepultura)
The Heavy Metal All Star (André Moraes, André Abujamra, Constantine Maroulis)
26 de setembro (sábado)
Palco Mundo
Paralamas do Sucesso
Palco Sunset
Sérgio Mendes com Carlinhos Brown
Erasmo Carlos com Ultraje a Rigor
Brothers of Brazil com convidado
Palco Mundo
Paralamas do Sucesso
Palco Sunset
Sérgio Mendes com Carlinhos Brown
Erasmo Carlos com Ultraje a Rigor
Brothers of Brazil com convidado
27 de setembro (domingo)
Palco Mundo
Cidade Negra (palco Mundo)
Palco Sunset
Suricato com Raul Midon
Palco Mundo
Cidade Negra (palco Mundo)
Palco Sunset
Suricato com Raul Midon
enTRevista Serguei
‘Igual ou pior do que a ditadura militar é o ‘sertanojo’ no Brasil’
Por: Marcos Chapeleta
A lenda viva do rock brasileiro Serguei acaba de ser homenageado com o DVD duplo “O Anjo Maldito do Rock Brasileiro”. Produzido de forma independente pelo cartunista Marcio Baraldi, é o primeiro material oficial em vídeo do artista de 81 anos, sendo 50 deles dedicados ao rock n’ roll. O DVD faz um apanhado de sua carreira e conta com depoimentos de diversos artistas nacionais, entre eles, João Barone (Paralamas do Sucesso), Ritchie, George Israel (Kid Abelha), Oswaldo Vecchione e Celso Vecchione (Made in Brazil), Dr. Silvana, Arnaldo Brandão (Hanoi-Hanoi), Renato Ladeira, Marcelo Sussekind e Roberto Lly (Herva Doce), Fernando Magalhães, Rodrigo Santos e Guto Goffi (Barão Vermelho), integrantes do Pandemonium, entre outros. O cantor é lembrado com carinho e respeito pelos entrevistados. Muitas historias são lembradas no vídeo, como o clássico romance com a cantora Janis Joplin contado em detalhes por pessoas próximas ao artista. O DVD ainda vem com um bônus contendo raridades de apresentações do músico e participações em programas de TV ao longo de sua carreira.
O lançamento do material aconteceu no fim de junho na loja Baratos Afins, em São Paulo. O próprio Serguei fez questão de estar presente. O Ligado à Música esteve no local e bateu um papo com o cantor sobre o DVD: “Os momentos mais importantes da minha vida, ele [Baraldi] colocou nesse DVD. Então fica o meu agradecimento imenso a ele. Sabe como é a vida do rock n’ roll, né? E sempre ele chega junto pra dar uma força”, agradecendo ao Baraldi pelo trabalho produzido. E continuou: “Como você vê, é de extremo bom gosto. Adorei a ideia, agradeço a Deus e agradeço a todas as pessoas que lembram de mim, e que acompanharam a minha carreira nos 50 anos de estrada. Pelos 81 anos, não me diz nada a não ser de muita alegria e muita intensidade. Sempre tive uma vida muito intensa. Não tenho do que reclamar, que nem dizia minha mãe. A única coisa que reclamo é não ter mais a Dona Maria e Seu Gustavo hoje”.
O idealizador do projeto, Marcio Baraldi, também estava no evento e deu mais detalhes de como foi produzido a homenagem ao artista: “Tomei a iniciativa porque o cara está com quase 82 anos de idade e não tinha um DVD até hoje, sacou? Ninguém se interessou em fazer, o que eu acho uma puta de uma injustiça. Então eu falei ‘antes que ele bata as botas, deixa eu fazer alguma coisa por ele’. Eu mesmo tirei dinheiro do meu bolso, não tenho patrocínio nenhum. Eu sou fã do Serguei e paguei 100% do meu bolso. Paguei câmeras, paguei as viagens, paguei prensagem, paguei tudo”.
Baraldi comentou da década de 1980, quando o rock brasileiro explodiu. Ele se recordou que de as gravadoras deram oportunidades para várias bandas, mas não investiram no Serguei: “Quando teve aqueleboom do rock nos anos 80, muita gente ganhou grana, mas ele não ganhou. Mas, ao mesmo tempo, ele foi um cara que nunca saiu dos palcos. Apesar de não ganhar grana com venda de discos, ele foi um artista de palco a vida inteira. E os shows do cara eram muito bons, porque ele é energia pura, saca?”. O cartunista também falou que o cantor era indisciplinado nas finanças, porque o negócio dele sempre foi o palco: “Para você ver, com essa idade ainda está no palco. Quantos roqueiros no mundo tem essa coragem? Quantos tem pique que encarar um palco ainda?”.
Voltando ao DVD, Baraldi teve a ajuda de Luiz Calanca, da Barato Afins, para organizar a discografia do “dinossauro do rock brasileiro”, que está nos extras e falou mais sobre o material bônus: “O Luiz Calanca me ajudou muito com os compactos raríssimos difíceis de achar. Está tudo ali, não faltou nada. Tem uma galeria de fotos com todas as idades do cara, desde um ano de idade, os pais dele, então está bem completo. O disco dois é um bônus disc com vários shows da carreira dele. Tem o show dele com o Celso Blues Boy no Circo Voador, em 1982, maravilhoso o show, histórico! Tem o show com o Cerebelo, banda que foi muito importante nos anos 80 e tocou com ele no Rock in Rio. Banda do Marcelo Xavier que compôs vários hits dele que toca até hoje. Tem programa dele no Jô Soares. Tem ele no Rock in Rio 91, apresentação maravilhosa, histórica, cara. Ele fez todo mundo sentar enquanto cantava. Pô, quantos caras conseguem fazer isso, saca?”. Baraldi demonstrou estar realizado pelo lançamento de “O Anjo Maldito do Rock Brasileiro”: “Deus me livre, mas se o Serguei morrer amanhã, está bem registrado. Antes tarde do que nunca, mas ele merecia ter esse reconhecimento com um apanhado de toda a carreira dele. De quebra ainda vem um pôster bonitinho”.
O cantor tem uma longa bagagem de vida no cenário musical. Viu nascer a indústria, conheceu artistas importantes do rock mundial e acompanhou a evolução do mercado fonográfico. O momento atual da música brasileira é algo que o incomoda: “Eu acho que igual ou pior do que a ditadura militar é o ‘sertanojo’ no Brasil. Primeiro lugar, eu não sei que diabo é sertão. Eu não sei. Sou garoto de Copacabana, Ipanema, Leblon e Lapa. Isso aí não diz nada. O pessoal do sertão, da roça, tudo cantando… a única coisa boa é Inezita Barroso, mas aí é até um insulto à música no Brasil em comparar com esse ‘sertanojo’ com a autenticidade, a beleza, o brilho de Inezita Barroso”.
Ele ainda criticou o rock atual: “Praticamente inexistente se você for comparar com o rock n’ roll, é um horror. Uma amiga minha americana chegou agora lá em casa e eu falei: ‘E a música nos Estados Unidos, o rock e a música?’. Ela falou: ‘Serguei, música? Não existe música mais’”.
Serguei terminou o papo falando a respeito da velhice, e também sobre a entrega no palco: “Esse negócio de idade, a melhor idade, é tudo uma coisa falsa, forjada, nojenta. Porra nenhuma. A velhice é uma merda. Minha prima estava conversando comigo e não tirava o olho daquela foto que foi Miss Brasil. Linda, um sonho. Aí ela olhava assim e falou: ‘É Serguei, vou te contar, olha lá, a velhice é uma merda’. Então, eu não me toco disso, porque eu vou pro palco e… música popular, blues, é a emoção. Cantar qualquer um canta, desde que tem uma afinação e uma voz boa. O cantar popular é uma entrega”.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Rock nacional vira raridade no rádio e volta para o underground
Na lista das 100 músicas mais tocadas em 2014, o gênero é representado apenas pelo Skank, na 93ª posição; veteranos, novatos e figurões da indústria levantam teorias sobre o fenômeno
Por Michele Miranda
O rock nunca esteve tão na moda no Brasil. Ao menos a jaqueta perfecto e as tachinhas punk não saem das vitrines: viraram itens obrigatórios no figurino de músicos, sejam eles do pagode, sertanejo ou funk. Anitta, por exemplo, “viralizou” Ramones e Nirvana junto a um público que não é lá muito fã de guitarras distorcidas ao usar as camisas-símbolo das bandas. Seguidores da cantora que talvez nem soubessem citar um hit dos grupos passaram a usar e abusar do vestuário. Mas esse boom em nada tem ajudado o rock nacional, cada vez mais presente no underground e deixado de lado pelo público brasileiro de rádio, que hoje vê os áureos tempos do BRock 80 na História. Segundo um levantamento da empresa de aferição Crowley, entre as músicas mais tocadas no dial em 2014 no país, a única banda nacional a figurar no top 100 é o Skank, que ocupa a 93ª posição com a canção “Ela me deixou”, do último disco dos mineiros, “Velocia”. Enquanto isso, figura em primeiro lugar “Domingo de manhã”, dos sertanejos Marcos & Belutti.
O Ecad (Escritório Central de Arrecadação) divulgou seu top 50 nacional — o top 100 só será conhecido em abril —, em que não há representantes do rock nacional. O número 1 nas mais tocadas é “Mozão”, interpretada pelo também sertanejo Luccas Lucco.
— O rock já não é a preferência do grande público, e acho que isso é uma peculiaridade brasileira. O rock gringo se reinventou. Arcade Fire e Arctic Monkeys, por exemplo, ganharam uma importância enorme, lotam festivais e levantam outras bandas. Não temos um caso semelhante no Brasil. O país precisa amadurecer para gostar de músicas mais elaboradas, sem refrãos pobres — avalia Samuel Rosa, cantor do Skank. — Pertencemos à última leva de bandas que conseguiram se destacar, mas estaríamos melhores se houvesse uma renovação do rock. Se novas bandas aparecessem, talvez não estivéssemos no 93º lugar. No meio de tanta música de massa do sertanejo e funk, com investimentos surreais, estar entre os 100 em 2014 é uma vitória tão grande quanto estar entre os 10 em 1994. A gente talvez deixasse de conhecer o Renato Russo se ele estivesse começando hoje, porque as pessoas só dão atenção para Gusttavo Lima. Na época da Legião Urbana já existiam esses Gusttavos, mas o rock conseguia romper as barreiras.
APEGO AOS NOMES MAIS ANTIGOS
O cenário foi se construindo ao longo dos anos, com aparições cada vez mais tímidas dos roqueiros brasileiros. Em 2012, o Charlie Brown Jr. foi a banda mais bem colocada, na 50ª posição, com “Céu azul”, segundo a Crowley. Vale lembrar que a banda estava sem gravadora e lançou “Música Popular Caiçara” naquele ano, de maneira independente. Em 2013, ano das mortes de seus integrantes Chorão e Champignon, o grupo de Santos também liderou entre os representantes do rock, na 43ª posição, com “Meu novo mundo”. Naquele mesmo ano, ainda apareceram O Rappa, na 68ª colocação, com “Anjos (para quem tem fé)”, e o Jota Quest, com a versão de “Tempos modernos”, de Lulu Santos, em 90º. Por que os ouvintes estão indo na direção oposta ao rock nacional? Alexandre Hovoruski, diretor artístico da Rádio Cidade, faz sua aposta:
— O rádio ainda é o grande veículo associado à música no mundo. Temos tentado mostrar trabalhos novos, mas bandas consagradas nunca agradaram tanto. Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Cazuza dominam boa parte da execução. É legal por um lado, mas problemático por outro, pois significa que a nova geração não está tendo vida fácil. Mas, assim que estourarem algumas, mudará tudo — aposta Hovoruski. — O rock no Brasil passa por um momento de grande mudança. O “quase” fim das gravadoras, a falta de investimentos, a curadoria, o fato de ficarmos oito anos sem rádios dedicadas ao gênero (no Rio) foram pontos negativos e decisivos nessa queda. É a hora de reinventar. A internet chama a atenção, mas, se não houver consistência, vira mais um caso de 15 minutos de fama. No Brasil, o sertanejo vem dominando as paradas, pois é, sem dúvida, o braço musical mais organizado e com mais dinheiro hoje.
Com os álbuns “Titãs” (1984), “Televisão” (1985) e “Cabeça Dinossauro” (1986), a banda de Tony Bellotto, Paulo Miklos e companhia lançou hinos de rock que são cantados até hoje em shows lotados. Há mais de 30 anos na estrada, o guitarrista Bellotto já ouviu inúmeras teorias sobre a morte do rock.
— Daqui a pouco, o público brasileiro vai se cansar do sertanejo e voltar a ouvir rock, que é um movimento sempre presente na História — diz Bellotto. — Fora do Brasil, ele se mantém entre os grandes, aqui está no subterrâneo. Nós é que estamos vivendo uma fase complicada, cultural, social e politicamente. E há coisas que só o rock consegue fazer, como música de protesto. O ano de 2014 foi muito rico em produção artística no rock, muitas bandas fizeram discos de excelência. É uma dicotomia, porque nada aparece nas rádios.
Nos anos 1980, tempos de ouro do gênero, existia uma premissa: “Se você tocasse guitarra e tivesse nascido em Brasília, já teria um contrato garantido nas gravadoras”, lembra Samuel Rosa, cujo grupo, o Skank, formado nos anos 1990, viveu o último suspiro do nascimento de grandes bandas de rock nacional, ao lado de Rappa e Los Hermanos, entre outros.
Nos anos 2000, o emo surgiu com fôlego, mas por onde andam Restart e Fresno nas paradas de sucesso? Apesar do momento negativo, tem gente experiente que aposta numa virada, como Sérgio Affonso, presidente da Warner Music Brasil, que trabalha há 48 anos na indústria fonográfica.
— Num cenário justo, o Brasil deveria ter ao menos 20 bandas de rock entre as 100 mais tocadas. O resultado de 2014 chegou ao ápice do ruim. Há duas tentativas heroicas: a Rádio Cidade e a 89 FM (de São Paulo). As gravadoras precisam fazer a roda girar e buscar outros nichos — analisa Affonso. — Mas sinto que estamos nos aproximando de uma mudança, porque o mercado é cíclico. Tanto que estamos em negociação com uma banda nova de rock, a carioca Canto Cego. Estamos debatendo uma política para promovê-los, vamos ter que reinventar esse trabalho. A única certeza que temos é que a internet é fundamental. Ela já saiu da obscuridade da pirataria para a absoluta relevância, talvez mais até que o disco físico, em muitos casos. É preciso que algum artista lidere um novo movimento.
GOIANOS PARA EXPORTAÇÃO
Ainda segundo Affonso, as bandas novas têm a facilidade da internet, mas não conseguem produzir discos profissionais, então as rádios também não têm material de rock de qualidade para tocar. De fato, há grupos elogiados pela crítica e que vêm construindo, com a web como principal aliada, um público fiel pelo país. É o caso dos goianos Boogarins, cujo primeiro disco foi lançado em 2013. Eles criaram uma rede de contatos e fizeram, em 2014, uma turnê internacional com 60 shows em 11 países, incluindo os festivais South by Southwest, no Texas, e Primavera Sound, em Barcelona. Mas nem sinal de suas canções em rádios brasileiras.
— Existe produção, existe público. Arte está sendo feita, rock está sendo feito. Mas não é onde o dinheiro está circulando agora. O rock morreu para a grande massa — comenta o guitarrista Benke. — As pessoas ainda estão presas às mesmas bandas dos anos 1980 e 90. Não é culpa do público, mas de quem divulga a arte. Como temos muitos shows, conseguimos nos bancar só com a banda. Mas, em meses de agenda menos cheia, fica complicado.
Paradoxalmente, a produção de rock no Brasil só aumenta. Festivais como o Bananada, em Goiânia, e o Picolé, que acontece há dois verões no Circo Voador, promovem a circulação de novos nomes. Mas a postura das bandas talvez seja muito diferente daquelas que dominaram o país há 30 anos.
— O rock hoje está mais sisudo. O interesse das bandas em conversar com o grande público diminuiu. Elas querem cada vez mais estar na cena alternativa, com canções mais conceituais e menos comerciais — opina Samuel Rosa. — A Legião Urbana dialogava com o público de rock, mas também com quem não era desse nicho, assim como Titãs e Paralamas do Sucesso. Eles faziam um trabalho de qualidade e ao mesmo tempo abrangente. A MTV também tem culpa, porque deixou de ser uma plataforma de vanguarda e passou a ser divulgadora de bandas de molecada. Quando o Skank surgiu, ao lado dos Raimundos, todos ouviam “Garota nacional” e “Mulher de fases”, porque sempre tivemos vontade de falar para o grande público. A Nação Zumbi, por exemplo, preferia o underground. Eu sempre falava com o Chico Science: “Vocês estão privando a população de conhecer música de qualidade”, porque eles se recusavam a ir a meios populares, como o Faustão.
PASSIVIDADE POLÍTICA
A banda de “Mulher de fases” também precisou se reinventar para não depender das rádios e gravadoras. Novamente em alta depois de uma década de vacas magras, os Raimundos usam a internet e o boca a boca para manter seus shows cheios. Assim, Digão e companhia foram escolhidos para abrir os shows do Foo Fighters pelo Brasil, em janeiro. O cantor e guitarrista aponta a passividade política como um dos fatores de fraqueza para o rock nacional:
— O que aconteceu com o Brasil? Um país que aceita calado toda essa roubalheira está longe de ser rock’n’roll, pois foi sempre através do rock que se questionou o que estava errado. O verdadeiro rock não morreu, está no seu habitat natural, o underground.
Canisso, baixista dos Raimundos, concorda com o companheiro e cita mais fatores:
— É difícil competir com gêneros que têm muito dinheiro para gastar em divulgação e até jabá. No rock, as bandas jogam nas 11: compõem, divulgam, tocam, produzem. Em outros gêneros os artistas recebem tudo pronto: aulas de música, stylist, produtores. Estouramos numa época em que pessoas funestas ainda não tinham percebido o potencial de ganhar dinheiro com jabá. A época de “Mulher de fases” era mais romântica. Nossa vida é muito mais difícil hoje. Existe uma máfia dizendo que o rock acabou, gastando dinheiro para que outras coisas não aconteçam. Se eu estivesse focado em dinheiro, seria baixista de um grupo sertanejo. Ser do rock não é só se vestir com camisa de banda, é um estilo de vida. Todo mundo gosta de tirar uma casquinha, como Anitta, com roupas e acessórios de bandas, e até o Luan Santana.
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